—Está marcado o dia do julgamento: é dentro d’uma semana!
—Tem a certeza? gritou Nicolao do quarto, onde fôra.
Pélagué correra para elle sem saber se era contentamento ou receio o que a impellia. Seguira-a Lioudmila. Esta continuava, com a sua voz grave, repassada de ironia:
—Tenho, sim! O procurador substituto Chostak já lavrou o libello de accusação. No tribunal, diz-se abertamente que o veredicto já está pronunciado. Que significará isto? O governo terá medo de que os magistrados tratem os seus inimigos com excessiva benevolencia? Depois de ter pervertido os seus servidores com tanta perseverança e paciencia, ainda não estará seguro do seu servilismo?
E dito isto, sentou-se no canapé e pôz-se a esfregar as cavadas faces; despedia do olhar sem brilho, infinito desprezo e a voz alteava-se-lhe cada vez mais irada.
—Não gaste a sua polvora inutilmente, Lioudmila! aconselhou Nicolao. O governo não a ouve!
As olheiras que assombreavam o rosto da mulher cavaram-se mais, cobrindo-lhe as feições d’uma névoa de ameaça. Mordendo os lábios, proseguiu:
—Eu lucto contra o governo. Que elle me mate, bem vae: está no seu direito, pois que sou sua inimiga! Mas que não ande a corromper as criaturas para defender o poder; que não me obrigue a votar-lhe profundo desprezo; que não me envenene a alma com tal cinismo!
Nicolao, por detraz dos seus oculos, fitou-a muito, com um franzir de palpebras e signaes approvativos.
A outra continuou a discorrer, como se aquelles a quem odiava estivessem na sua presença. Pélagué escutava attentamente aquellas frases, mas sem as compreender. Machinalmente, a si mesma repetia as mesmas palavras: