—Oh! ha cinco annos que está casada!

—Porque não casou com ella? Não o amava?

Teve um momento de reflexão e respondeu:

—Creio que me amava... Tenho mesmo a certeza! Porém, veja a senhora! fomos sempre infelizes: quando ella estava em liberdade, era eu que estava preso, e quando eu estava solto, era ella que estava na cadeia. Viviamos na mesma situação da Sachenka e do Pavel! Finalmente, mandaram-na por dez annos para a Sibéria... Tão longe!... Eu quiz seguil-a... Mas tivemos ambos vergonha, pelo nosso amor... E fiquei. No degredo, travou conhecimento com um dos meus camaradas, excellente rapaz. Evadiram-se juntos... e agora vivem no estrangeiro...

Tirou os oculos e limpou-os; depois, examinou as lentes contra a luz e entrou de novo a esfregal-as.

—Ah, meu caro amigo! disse affectuosamente Pélagué, abanando a cabeça.

Lastimava-o Pélagué sinceramente, mas ao mesmo tempo, havia n’elle o que quer que era que a forçara a sorrir, com bondoso e maternal sorriso. Nicolao mudou logo de expressão, retomou a penna e batendo com ella, ao ritmo das frases, declarou:

—Afinal, a vida de familia diminue a energia do revoluccionario; é certo, diminue-a sempre! Vem os filhos, o dinheiro rareia, é preciso trabalhar para ganhar o pão... E o verdadeiro revoluccionario deve desenvolver a sua energia sem desfallecimentos. E é preciso ganhar tempo para isso! Se nos deixamos ficar para traz, vencidos pelo cansaço, ou seduzidos pela possibilidade d’uma conquistasinha amorosa, traímos a bem dizer, a causa do povo!

Falava com voz firme e, bem que o rosto se lhe conservasse pálido, mostrava no olhar uma decisão sem transigencias, inabalavel.

De novo, violenta campainhada interrompeu as considerações de Nicolao. Era Lioudmila. Vinha com as faces muito vermelhas do frio. Emquanto tirava a capa de borracha, annunciou em tom de irritação: