—Que idéa! exclamou ella, agitando negativamente a mão. Eu, a suspirar? O que eu tinha era medo de que me obrigassem a casar com um ou com o outro.

—Ninguem lhe agradava então?...

Reflectiu e depois respondeu:

—Não me lembro, meu amigo. É provavel que houvesse um que me agradasse mais do que os outros... E como não havia de ser assim?... Mas não me lembro.

Fitou o seu interlocutor e resumiu com dolorosa melancolia:

—Fui tão maltratada pelo meu marido, que tudo o que se passou antes d’elle é como se me tivesse apagado da lembrança.

E ausentou-se por um instante. Quando voltou, disse-lhe Nicolao com affectuoso olhar, como para lhe suavisar as penosas recordações, com palavras repassadas de ternura e amor:

—Quer saber? Tambem eu tive uma... historia... parecida com a da Sachenka. Amava uma menina, uma criatura deliciosa! Era ella a estrella da minha vida... Ha vinte annos que a conheço e a amo... porque a amo ainda hoje, para dizer a verdade; amo-a tanto como sempre a amei... de toda a minha alma, com gratidão!

Pélagué via-lhe no olhar uma chamma viva e apaixonada. Elle descansára a cabeça nos braços apoiados ao espaldar da poltrona e olhava para longe, nem elle mesmo sabia para onde. Todo o seu corpo magro e delgado, mas robusto, parecia tender para um ponto fixo, tal a haste da planta virada para a luz do sol.

—Mas então, case-se! aconselhou ella.