Indifferente, o homem da cara de porcelana estava lendo um documento; a sua voz circumspecta enchia a sala d’um tedio que causava somnolencias no publico. Em voz baixa e animadamente, quatro advogados conversavam com os réus; tinham todos uma gesticulação saccudida e veemente e faziam pensar em grandes passarolos negros.
Á direita do velho, um juiz ventrudo, de olhinhos sumidos entre as papadas da gordura, enchia completamente toda a capacidade da poltrona; á esquerda, estava um homem alquebrado, de bigode vermelho, de rosto esmaecido. Reclinava com lassidão a cabeça no espaldar, de palpebras semi-cerradas, meditando. O procurador tambem apparentava cansaço, enfado e indifferença. Por detraz dos juizes, occupavam poltronas varios individuos: um robusto e esbelto homem estava acariciando uma das faces, com ares de grande concentração; o marechal da nobreza, já grisalho, de rosto rubicundo e comprida barba, divagava o olhar dos seus grandes olhos simplorios; o syndico do bailiado, a quem o enorme abdomen visivelmente incommodava, diligenciava disfarçal-o sob uma aba da blusa, que escorregava de contínuo.
—Aqui não ha criminosos nem juizes! proclamou Pavel com voz firme. Aqui só ha captivos e vencedores!
Fez-se silencio. Durante alguns segundos, o ouvido de Pélagué nada distinguiu além do ranger precipitado e estridente das pennas sobre o papel e das palpitações do seu proprio coração.
O presidente do tribunal parecia que estava escutando ou esperando alguma coisa. Os juizes seus collegas agitaram-se nas poltronas. Elle então disse:
—Sim!... André Nakhodka!... Reconhece...
Ouviram-se vozes segredar:
—Levanta-te!... Levante-se!
André poz-se de pé com lentidão e ficou a olhar para o velho, de soslaio, emquanto frisava e desfrisava o bigode.
—De que posso eu reconhecer-me culpado? disse, com um encolher de hombros, o russo-menor, na sua voz cantante e arrastada. Eu não matei, nem roubei: simplesmente protesto contra esta organisação da sociedade, que obriga os homens a explorarem-se e a assassinarem-se uns aos outros.