De novo se ouviu a voz triste e sumida do presidente.
Os quatro advogados escutavam attentos; os réus conversavam em segredo uns com os outros; Fédia continuava a occultar-se ás vistas, sorrindo, muito compromettido.
—Então, não viste aquillo?... Falou melhor que todos os outros! murmurou Sizof ao ouvido da sua visinha. Ah, aquelle brejeiro!
Pélagué sorriu sem o compreender. Tudo o que se estava passando não era para ella mais do que o prologo inutil e forçado d’alguma coisa terrivel, que, ao surgir, havia de esmagar todo o auditório sob gélido terror. Comtudo, as calmas respostas de Pavel e André manifestavam tanta firmeza e decisão, como se as tivessem pronunciado na modesta casinha do arrabalde e não perante juizes. A réplica enthusiasta e juvenil de Fédia tinha-a divertido immenso. Pairava na sala uma atmosfera de audácia e de mocidade, e, pela agitação de todo o auditório, Pélagué sentia que não era ella só que lhe sentia os effluvios.
—A sua opinião? perguntou o velho.
O procurador calvo ergueu-se com a mão apoiada na carteira e discursou com verbosidade, citando numeros. Nada havia n’aquella voz que infundisse terror. No emtanto, ao ouvil-o, Pélagué sentiu logo como uma punhalada no coração: era um vago presentimento de alguma coisa hostil e que se lhe afigurava ir desenvolvendo-se lentamente em uma fórma indefinivel. Examinava tambem os juizes, mas não os compreendia: ao contrario do que ella esperava, não os via zangar-se com Pavel e Fédia, nem proferir palavras injuriosas contra os réus; queria-lhe parecer que todas as perguntas que faziam não tinham para elles importancia alguma; dir-se-ia que era de má vontade que as formulavam e que lhes custava esperar as respostas; nada os interessava tudo sabiam já d’antemão.
Agora estava um policia postado na frente d’elles e falava com uma voz de baixo profundo.
—Toda a gente apontava Pavel Vlassof como o principal cabeça de motim.
—E André Nakhodka? perguntou com indolencia o jury gordo.
—Esse tambem.