—Olha para a presença de espirito com que elles estão, aquelles garotos, an? Parecem verdadeiros fidalgos, não é verdade? E no entretanto estão a ser julgados... para os ensinar a não se metterem no que não é da sua conta.
Ella repetiu involuntariamente a si mesma:
—Estão sendo julgados...
Na sala, depunham testemunhas, com vozes incaracteristicas e atabalhoadas; os juizes iam sempre interrogando, indifferentes e mal humorados. O juiz gordo bocejava, dissimulando a bôca sob a mão inchada de cieiro; o seu collega dos bigodes ruivos tornára-se ainda mais lívido; por vezes, erguia o braço, premia fortemente uma das fontes com um dedo, e ficava-se a fitar o tecto com o olhar morto.
De vez em quando, escrevia o procurador algumas linhas a lapis e depois recomeçava a cochichar com o marechal da nobreza. O administrador cruzára as pernas e tamborilava n’uma dellas, com o olhar fixado com gravidade no movimento dos dedos.
Com o ventre descansando-lhe nos joelhos e sustentando-o prudentemente entre as duas mãos, o syndico do bailiado quedára-se de cabeça pendida; parecia ser elle o unico a escutar o murmurio monotono das vozes, além do velho, enterrado na poltrona e immovel como um catavento quando não sopra a brisa. Durou isto muito tempo e de novo o aborrecimento se apoderava do auditório.
Pélagué sentia que a justiça, a justiça implacavel que põe friamente as almas a descoberto, que as examina, que tudo vê e tudo aprecia com os olhos incurruptiveis e tudo pesa com mão leal, não tinha ainda dado entrada n’aquella sala. Nada via por emquanto que a amedrontasse com uma manifestação de força ou de majestade. Rostos descoloridos, olhos sem brilho, vozes fatigadas, o indifferentismo tristonho d’uma tarde de outono, eis tudo o que presenceava.
—Declaro... disse o velho com clareza; e em seguida, depois de ter abafado o resto da frase entre os delgados labios, ergueu-se.
Logo a sala se encheu de rumores, suspiros, exclamações suffocadas, accessos de tosse e arrastar de pés. Os réus foram conduzidos para fóra do pretorio; ao saírem, faziam signaes com a cabeça e sorriam-se para parentes e amigos. Ivan Goussef chegou mesmo a gritar com affabilidade para quem quer que fôsse:
—Não te deixes intimidar, camarada!