O presidente, vacillante na sua poltrona, para a direita e para a esquerda, dirigiu algumas palavras a Pavel, mas a voz sumiu-se-lhe no curso amplo e igual da exposição que o mancebo ia proferindo.

—Somos socialistas. Significa isto que somos inimigos da propriedade particular, que promove a desunião entre os homens, os leva a armar-se uns contra os outros e cria uma rivalidade de interesses irreconciliaveis, que mente quando pretende dissimular ou justificar esta hostilidade e perverte os homens pela mentira, a hypocrisia e o ódio. Somos de opinião que a sociedade, considerando o homem unicamente como um meio de auferir riquezas, é anti-humana e torna se nos declaradamente hostil; não podemos acceitar a sua moral com duas caras, o seu cynismo sem vergonha e a crueldade com que trata as individualidades que lhe são adversas; queremos luctar, e havemos de luctar, contra todas as fórmas de subserviencia fisica e moral do homem, em uso n’esta sociedade, contra todos os métodos de fraccionar a collectividade em proveito da cubiça! Nós, os operários, somos quem pelo nosso trabalho tudo cria, desde as máquinas giganteas até aos brinquedos das crianças. E vêmo-nos privados do direito de luctar pela nossa dignidade de homens; Cada qual arroga-se o direito de nos transformar em instrumentos para attingir o seu fim! Queremos que nos dêem liberdade bastante para que se nos torne possivel, com o tempo, conquistar o poder. Quer-se o poder para o povo!...

Aqui, sorriu Pavel e passou de vagar a mão pelos cabellos; a luz dos seus olhos azues brilhou com fulgor mais intenso.

—Tenha a bondade... Não saia do assunto! disse-lhe o presidente em voz nítida e forte.

Virava-se agora todo para Pavel e fitava-o. Pareceu a Pélagué distinguir-lhe nos olhos, até ali palidos e sem expressão, um brilho cúpido e de maldade.

Todos os juizes tinham as attenções voltadas para o orador; os seus olhos pareciam colar-se-lhe, aderir-lhe fortemente ao corpo, para lhe sugarem o sangue e com elle reanimarem os seus membros exaustos. Pavel, firme e resoluto, estendeu para elles o braço e proseguiu com voz distincta:

—Somos revolucionários e sêl-o-emos emquanto uns só tratarem de opprimir os outros. Havemos de luctar contra a sociedade, cujos interesses os senhores foram mandados que defendessem; a reconciliação só entre nós será possivel quando nós fôrmos vencedores. Porque havemos de ser nós os vencedores, nós, os opprimidos! Os mandatários de todos vós, senhores, não são tão fortes como se julgam. Essas riquezas que accumularam e na defeza das quaes sacrificam milhões de infelizes creaturas, essa força que lhes dá o poder sobre nós, criam entre elles alternativas de hostilidade e arruinam-nos, a elles, fisica e moralmente. A defeza do vosso poderio, senhores, exige uma constante tensão d’espirito; e, na realidade, vós, nossos senhores, sois todos mais escravos do que nós, porque são os vossos espiritos que jazem na oppressão, ao passo que nós só fisicamente somos opprimidos. Não podeis libertar-vos do jugo dos preconceitos e dos habitos, e isto mata-vos moralmente; emquanto a nós, nada nos impede que sejamos intimamente livres! E a nossa consciencia vae tomando vida, vae desenvolvendo se sem cessar; inflamma-se dia a dia e arrasta comsigo os melhores elementos, moralmente sãos, mesmo do próprio meio que é o vosso... E, se não, vêde: já não possuis ninguem que possa lutar em nome do vosso poderio contra a corrente das idéas; esgotastes já todos os argumentos capazes de vos protegerem dos ataques da justiça da história; nada mais podeis criar novo, no dominio da intellectualidade: sois uns estereis de espirito. As nossas idéas, pelo contrário, desenvolvem-se com força crescente, penetram nas massas populares e vão-nas dispondo para a lucta pela liberdade, lucta incarniçada, lucta implacavel! Não podereis travar este movimento, senão usando de crueldade e de cinismo. Mas o cinismo é evidente demais e a crueldade não faz senão irritar o povo. As mãos que hoje empregaes para nos suffocar, hão de ámanhã apertar as nossas mãos em fraterno amplexo. A vossa energia é a energia mecanica produzida pelo açambarcamento do oiro, e é essa energia que vos desune em grupos rivaes, destinados a aniquilarem se mutuamente. Emquanto que a nossa energia é a força viva e sem cessar crescente do sentimento de solidariedade que liga todos os opprimidos. Tudo o que praticaes é criminoso, porque só pensaes em escravisar o homem; o nosso empreendimento, esse, liberta o mundo dos monstros e fantasmas criados pelas vossas mentiras, pela vossa cupidez, pelo vosso ódio! Mas, em breve, a grande massa dos nossos artifices e camponezes ha de ser liberta e ha de criar um mundo livre, harmonioso e immenso. E assim ha de ser!

Calou-se Pavel um instante e depois repetiu ainda com mais força:

—E assim ha de ser!

Os juizes cochichavam, com caretas estranhas, sem desviarem os olhos de Pavel. A mãe pensava de si para comsigo, que aquelles olhares infamavam o corpo vigoroso de seu filho, cuja saúde e fresca mocidade invejavam. Os réus tinham escutado attentos as palavras do seu companheiro. Pálidos ao principio, tinham agora nos olhares uma chamma de alacre contentamento. Pélagué devorára as frases de seu filho; gravavam-se lhe todas profundamente na memória.