O velhinho por diversas vezes interrompeu Pavel, para lhe explicar ninguem saberia dizer o quê, d’uma das occasiões, esboçou até, um sorriso triste. Pavel escutava-o em silencio e logo retomava a palavra com voz severa mas serena. Todas as attenções convergiam para elle. Durou isto muito tempo. Por fim, o presidente gritou algumas palavras, ao mesmo tempo que estendia o braço na direcção do mancebo. Este respondeu em tom levemente ironico:
—Eu vou concluir. Não foi idea minha offender pessoalmente os membros d’este tribunal, bem ao contrário: forçado a assistir a esta comédia a que chamaes uma audiencia, chego a sentir compaixão pelos senhores. A despeito de tudo, os senhores são homens e é sempre para nós uma humilhação ver homens, curvarem-se de tão vil maneira ao serviço da violencia e perderem a tal ponto a consciencia da sua dignidade humana... mesmo quando esses homens se mostram hostis aos nossos intentos...
E sentou-se sem olhar para os juizes.
A mãe conteve a respiração, fitando, anelante, aquelles de quem dependia a sorte de seu filho, e esperou.
André, radiante, apertou vigorosamente a mão de Pavel. Samoílof, Mazine e todos os outros voltaram-se para elle. Pavel sorriu, um tanto constrangido pelo entusiasmo dos seus companheiros e olhando para a bancada em que se encontrava Pélagué, fez-lhe um signal de cabeça, como para perguntar:
—Foi bem, assim?
Ella respondeu-lhe com profundo suspiro de contentamento, fremente, inundada por uma ardente vaga de amor.
—Ahi está! Vae começar o julgamento! segredou-lhe Sizof. O teu filho deixou-os em bonito estado, an?
Ella abanou a cabeça sem responder, satisfeita de ter ouvido o filho falar com tal desassombro e talvez mais satisfeita ainda por elle ter terminado o discurso. Martelava-lhe no cérebro uma idéa fixa:
—Meus filhos! que vae ser de vocês?