A rapariga endireitou-se de subito e exclamou:

—Ah! não! Ha momentos em que a minha alegria, a minha felicidade não tem limites!

O seu rosto empallideceu, e saíam chispas de seus olhos azues. Pondo a mão no hombro de Pélagué, disse em voz profunda, n’um tom que parecia vindo do coração:

—Se soubesse... se podesse compreender a obra brilhante e enorme que estamos realisando!... Havia de sentil-a!

Uma impressão, não muito afastada da inveja, apoderou-se do coração de Pélagué, que disse tristemente, erguendo-se:

—Estou muito velha para essas coisas... sou ignorante... estou muito velha...

...Pavel falava muito, discutia cada vez com maior ardor, e emagrecia. Pélagué julgava notar que, quando elle conversava com Natacha ou para ella olhava demoradamente, o seu olhar severo se tornava suave, que a sua voz vibrava com mais carinho, que elle se revelava ainda mais simples.

—Deus o queira!... pensava. Sorria á ideia de que Natacha podesse vir a ser sua nora.

Quando, nas reuniões, a discussão tomava mais calor, o russo-menor levantava-se, e bamboleando como o badalo d’um sino, soltava com a sua voz sonora palavras claras e simples que faziam voltar o socego. O taciturno Vessoftchikof levava constantemente os companheiros a actos mal definidos; era sempre elle e Samoílof, o rapaz ruivo, quem esquentava as discussões. Tinham por partidario Ivan Boukine, o rapaz de cabeça redondinha, de sobrolhos brancos, e que parecia deslavado como o sol. Jacob Somof, sempre modesto, asseado e bem penteado, falava pouco e breve, em voz baixa e grave. Como Fédia Mazine, o adolescente de fronte alta, era sempre da opinião de Pavel e do russo-menor.

Por vezes, em logar de Natacha, era Nicolao Ivanovitch quem vinha da cidade. Usava occulos e tinha barbicha loira. Natural d’uma provincia distante, as inflexões da sua voz eram especiaes e cantantes, falando quasi sempre sobre themas simples, a vida em familia, as creanças, o commercio, a policia, o preço da carne e do pão, emfim a vida de todos os dias. E em tudo descobria êrros, confusão, coisas estupidas, divertidas ás vezes, mas sempre prejudiciaes para os homens. Parecia a Pélagué que Nicolao Ivanovitch viera de longe, d’outro paiz onde a existencia era facil e honesta, e que ali, onde ella vivia tudo lhe desagradava. Era de côr amarelenta; pequenas rugas lhe circumdavam os olhos, a voz era grossa, e tinha as mãos sempre quentes. Quando cumprimentava a mãe de Pavel, agarrava-lhe a mão por completo com os dedos vigorosos, e tal aperto era como um consolo para a alma d’ella.