—Silencio! gritou de novo a sentinella, ameaçando-o com um dedo.
Sizof abanava a cabeça, apouquentado.
Pélagué não perdia de vista os juizes. Notava-lhes a crescente excitação, via-os falar uns com os outros, mas não podia comprehender o que diziam. O susurro frio e escorregadio das suas vozes perpassava-lhe pelo rosto, fazia-lhe tremer nervosamente as faces e provocava-lhe na bôca uma sensação desagradavel. Afigurava-se-lhe que estavam falando todos elles do corpo de seu filho e do dos seus companheiros, d’aquelles corpos robustos, dos seus músculos e dos seus membros cheios de vermelho sangue e de força vivente. Estes corpos deviam excitar n’elles uma inveja impotente e malvada, uma avidez ardente de esgotados e doentes. Falavam com estalidos sêcos dos lábios, com o pezar de não possuirem aquelles músculos, capazes de trabalhar e de enriquecer, de gozar e de criar. Agora, iam aquelles corpos saír da circulação activa da vida, renunciavam a ella, ninguem poderia mais chamar-lhes seus, aproveitar a sua força, nem absorvel-os. E era por isso que inspiravam aos velhos magistrados a animosidade vingativa e desconsolada das feras já sem forças que teem diante de si a carne fresca, mas já não dispõem da energia sufficiente para d’ella se apoderarem.
E quanto mais Pélagué olhava para elles, mais esta idéa grosseira e singular se accentuava no seu espirito. Parecia-lhe que estavam patenteando claramente a sua rapacidade e a sua sanha de esfomeados, capazes, em tempos idos, de comer muito. Ella, a mulher e mãe, para a qual o corpo do filho tinha sido sempre e a despeito de tudo, mais querido do que a própria alma, sentia-se horrorisada com os olhares sem viço que perpassavam pelo rosto d’elle, tateando o peito, os hombros, os braços, roçando-se pela ardente pelle, como em busca de uma possibilidade de se reanimarem, de requentarem o sangue das suas veias endurecidas, dos seus músculos gastos de homens semi-mortos. Parecia a Pélagué que o seu filho sentia aquelles contactos frios e que estremecia quando para ella olhava.
O mancebo fixava em sua mãe os olhos um tanto fatigados, mas calmos e affectuosos. Por momentos, sorria-lhe e fazia-lhe um signal de cabeça.
—Em breve estarei em liberdade! dizia este sorriso, que era uma caricia para o coração de Pélagué.
N’este comenos, levantaram-se os juizes todos ao mesmo tempo. Pélagué seguiu-lhes instinctivamente os movimentos.
—Vão-se embora! disse Sizof.
—Para os condemnar! perguntou ella.
—Sim...