—Mas, como? É possivel?

—Bem vês!

—E o que é que vão fazer ao nosso filho?

—Cala-te! Deixa-me!

—Percebia-se que no público alguma coisa se havia perdido, anniquilado ou transformado. Os olhos desvairados, pestanejavam como se ardente lareira se lhes tivesse incendiado na frente. Embora não compreendessem o grande sentimento que acabava de despontar n’elles tão bruscamente, os curiosos iam, sem dar por isso, fragmentando-o em sensações evidentes, accessiveis e futeis. O irmão de Boukine dizia a meia voz, sem constrangimento algum:

—Perdão! Porque não os deixam falar? O procurador disse tudo o que quiz e durante todo o tempo que quiz!

Perto da bancada estava uma sentinella. O soldado murmurava, agitando o braço:

—Silencio! silencio!

O pae de Samoílof inclinou-se para traz, e, disfarçado com as costas da mulher, continuou a pronunciar em voz surda frases entrecortadas:

—Evidentemente!... Admittindo que elles sejam culpados, o dever do tribunal era deixal-os explicar-se... Contra quem se revoltaram elles? Contra tudo! Eu gostava de compreender, afinal! Porque isto tambem me interessa... De que lado está a verdade? Sim, eu queria compreender... É preciso que os deixem explicar-se!