—Os senhores deviam envergonhar-se!... Eu, que não passo d’um ignorante, compreendo ainda assim o que deve ser a justiça!

Levantou o braço acima da cabeça e calou-se, com as palpebras semi-cerradas, como se estivesse vendo qualquer coisa muito ao longe.

—Que diz? gritou o velho com attónito exaspero, reclinando-se na poltrona. Olhe que você!...

Boukine deixou-se caír no banco tristemente. Havia nas suas palavras desacompanhadas de significação, alguma coisa immensa e importante, e ao mesmo tempo uma censura ingénua e penalisada. Foi esta a impressão que todos receberam. Os próprios juizes apuraram o ouvido, como para distinguirem um éco mais nitido de tal discurso. Nas bancadas reservadas ao público, tudo se calou; apenas ficou resoando um leve ruído de chôro. Depois sorriu-se o procurador e encolheu os hombros; o marechal da nobreza tossiu; de novo se elevaram susurros que serpenteavam vagamente pela sala.

Pélagué inclinou-se para Sizof e perguntou-lhe:

—Os juizes falarão?

—Não; está tudo terminado. Só falta pronunciar o veredicto.

—E não ha mais nada?

—Não!

Pélagué não podia acreditar. A mãe de Samoílof agitava-se anciosamente, tocando em Pélagué com o cotovello e com o hombro, e perguntando em voz baixa ao marido: