Sachenka ia queimando no fogão os papeis rasgados. Quando os viu de todo consumidos, teve o cuidado de misturar as cinzas com as do combustivel.
—Vá, Sachenka, vá! disse-lhe Nicolao com um aperto de mão. Até á vista! Não se esqueça de me mandar livros, se fôr publicada qualquer coisa de novidade e intensa. Até á vista, cara correligionaria! E trate sobretudo de ter prudencia...
—Julga estar muito tempo na prisão? perguntou Sachenka.
—O demónio que o julgue! Bastante tempo, com certeza... Teem diversos pecadinhos a censurar-me... Pélagué, saia ao mesmo tempo com Sachenka. É mais difficil seguir duas pessôas.
—Bem! concordou ella. Eu já me visto.
Observára Nicolao attentamente, e nada anormal descobrira n’elle, a não ser a preoccupação que lhe velava o olhar bondoso e complacente. Não lhe vira apparentar emoção alguma.
Igualmente attencioso para com todos, affectuoso e metódico, sempre socegado e solitário, levava a mesma existencia, misteriosa no seu fôro íntimo e como que antepondo-se a todas as deligencias alheias. Pélagué estimava-o tal qual elle era, com um amor prudente, que parecia duvidar de si mesmo. E agora experimentava por Nicolao uma compaixão indizivel; mas dominava-a porque sabia que se elle lh’a notasse, havia de commover-se e tornar-se um pouco ridículo, como habitualmente. Não era sob este aspecto que Pélagué o queria vêr.
Já vestida, voltou ao gabinete. Nicolao estava apertando a mão de Sachenka. Dizia-lhe:
—Optimamente! Estou certo de que ha de ser bom para elle, como para si... Um poucochinho de felicidade pessoal nunca causa damno... Mas olhe que não é bom que seja demasiada, para não perder o valor. Está pronta, mãesinha!
Acercou-se d’ella, compondo os óculos.