—Ora essa! Porquê?
Diligenciava Pélagué descobrir onde era que Lioudmila imprimia os folhetos, mas não via em torno de si nada extraordinario. No quarto, com trez janellas para a rua, havia um canapé, um armário com livros, uma mesa, cadeiras, uma cama encostada a uma das paredes; n’um dos cantos, o lavatório, n’outro, o fogão; pelas paredes fotografias. Tudo isto com apparencia de novo, sólido e aceado. E n’este conjunto, a figura quasi monástica da dona do aposento era principalmente o que impunha severo aspecto. Presentia-se haver n’aquelle quarto o que quer que fôsse misterioso e occulto.
Olhou depois para as portas: penetrára no quarto por uma d’ellas—a que abria para uma exigua casa de entrada; perto do fogão, havia outra, alta e estreita.
—Vim para tratar de certo negócio... disse ella um tanto confusa, ao ver que Lioudmila a estava observando.
—Já sei. Ninguem vem a minha casa com outro motivo.
Pareceu a Pélagué vibrar na voz da sua interlocutora uma intenção singular; via-lhe um sorrisinho nas delgadas commissuras dos lábios, e as pupilas, baças habitualmente, brilhavam-lhe por detraz dos vidros da luneta. Desviou portanto o olhar e apresentou-lhe o manuscrito com o discurso de Pavel.
—Aqui está. Pedem-lhe que o imprima o mais depressa que possa.
E narrou os preparativos a que Nicolao procedera, prevendo a sua captura.
Sem dizer uma palavra, Lioudmila entalou o papel no cinto e sentou-se n’uma cadeira. Agitavam-se-lhe pelo rosto impassivel os reflexos do lume.
—Quando os polícias vierem a minha casa, faço fogo para cima d’elles! declarou. Tenho o direito de defender-me contra a violencia e o dever de luctar contra ella, visto que instigo tambem os outros a fazel-o!