Ergueu o braço para o ceu:
—Além ha um sol!
E, batendo no peito, concluiu:
—E aqui, outro se ha de accender, mais brilhante que o do ceu, o sol da felicidade humana, que eternamente illuminará a terra inteira e aquelles que a habitam, com a luz do amor de cada creatura por todos e por tudo!
E Pélagué evocava as palavras das orações esquecidas para entusiasmar a sua nova fé e lançava-as do coração como scentelhas:
—Os nossos filhos, caminhando pela senda da razão e da verdade, levam o amor a todas as coisas, criam um novo ceu, accendem o lume sagrado e incorruptivel que brota da alma, do âmago do coração. E é assim que nos é offerecida uma vida nova no apaixonado amor dos nossos filhos pelo mundo inteiro. E quem poderia extinguir este amor? Quem? Existe força superior a esta? Quem poderia vencel-a? Foi a própria terra que a gerou e a vida inteira exige a sua victória... a vida inteira!
Pélagué afastou-se de Lioudmila e sentou-se, offegante, quebrada pela sua commoção. A joven senhora afastou-se tambem de mansinho, com precaução, como se receasse quebrar alguma coisa. No seu passo agil, atravessou o quarto, fixando para longe d’ali o olhar profundo dos seus olhos sem brilho. Parecia ainda mais delgada, mais hirta e mais alta. Tinha na cara chupada e severa uma expressão concentrada, comprimia nervosamente os lábios. O silencio acabára por apaziguar a exaltação de Pélagué. A meia voz, n’um tom de receio, perguntou:
—Talvez eu dissesse coisas que não deveria ter dito.
Lioudmila voltou-se com vivacidade, lançou-lhe um olhar assustado e exclamou:
—Não! é assim mesmo! é assim mesmo!... Mas não falemos mais n’isso! Fiquem as suas palavras taes quaes as pronunciou, sim!