Então, Pélagué tomou-a entre os braços; teve um riso silencioso, meigamente ufana da victória obtida pelo seu coração.

Ao afastarem-se as duas mulheres, Lioudmila fitou Pélagué e perguntou em voz baixa:

—Sabe que é muito agradavel estar na sua companhia?

E a si própria respondeu, rematando:

—Sim, parece que se está no cimo de uma alta montanha, ao nascer da aurora...

XXX

Lá fóra, o ar sêco e glacial fustigava o corpo, irritava a garganta e o nariz; suffocava a respiração. Pélagué parou a certa altura, olhando em torno: perto d’ali, á esquina d’uma rua, estava um cocheiro com um bonné de pello; mais longe, caminhava um homem, todo corcovado, com a cabeça encolhida entre os hombros. Um soldado corria, aos pulos, esfregando as orelhas.

«Provavelmente mandaram-no á loja, a comprar alguma coisa!» pensou ella. Escutava com satisfação o ruído da neve que se lhe quebrava sob os passos. Em breve chegou á estação; o comboio ainda não estava formado; no entretanto, havia já muita gente na sala de espera da terceira classe, enfumaçada e suja. O frio para lá escorraçára os trabalhadores do caminho de ferro; e tambem vinham aquentar-se ali, cocheiros e individuos mal vestidos, sem eira nem leira. Tambem ali se encontravam viajantes: alguns campónios, um negociante gordo, vestido de espessa capa de pelles, um padre com a sua filha, uma rapariguita de rosto pálido, cinco ou seis soldados e alguns burguezes com ares de atarefados. Fumava-se, conversava-se, bebia-se aguardente ou chá. Junto ao bufete, ouviam-se grandes gargalhadas; pairava por cima das cabeças o fumo do tabaco em densas nuvens. Ao abrir-se, a porta chiava, e quando a tornavam a fechar, batia com estrondo e as vidraças resoavam e tremiam. Assaltava violentamente as narinas um cheiro a tabaco e a peixe salgado.

Pélagué sentou-se perto da porta, bem em evidencia, e esperou. Quando entrava alguem, envolvia-a uma lufada d’ar frio; a sensação era agradavel: respirava n’esses momentos a plenos pulmões. Apparecia gente em pesados trajos, carregada de embrulhos; prendiam se desastradamente na porta, praguejavam, atiravam os seus fardos para o chão; depois limpavam da geada a gola e as mangas dos casacões, limpavam as barbas ou os bigodes, resmungando.

Um rapaz, que trazia uma mala amarella, entrou, e depois de olhar rapidamente em torno, foi direito a Pélagué.