—A Moscou? perguntou elle a meia voz.
—Sim! a casa de Tania.
—Ahi tem!
E dito isto, collocou a mala sobre o banco, ao lado d’ella, tirou um cigarro da algibeira, accendeu-o rapidamente e tornou a saír por outra porta, depois de ter erguido levemente o bonné. Pélagué passou a mão pelo coiro frio da mala e encostou-se a ella. Satisfeita, emfim, pôz-se a examinar quem estava. Instantes depois, levantou-se e foi sentar-se n’outro banco, mais próximo da saída. Levava a mala n’uma das mãos com a maior serenidade, de cabeça levantada e fitando as caras que lhe passavam ao alcance da vista.
Um homem vestido d’um casaco curto e com a cabeça enterrada na gola, erguida, deu-lhe um encontrão e afastou-se sem dizer uma palavra, levando simplesmente a mão ao bonné. Pareceu-lhe tel-o já visto. Voltou-se e viu que elle a estava observando. Sentiu-se como trespassada por aquelle olhar claro; a mala entrou a tremer-lhe na mão, como se tivese repentinamente aumentado de peso.
—Onde vi eu aquelle homem? perguntava a si mesma, como para repellir a sensação desagradavel que lhe subia do peito até á garganta e lhe enchia a bocca de amargo travor. Apoderou-se d’ella um desejo irresistivel de se voltar e de olhar mais uma vez para elle: o homem continuava no mesmo logar, firmando-se ora n’um pé, ora no outro e parecia indeciso. Introduzira a mão direita entre os botões do casaco e conservava a outra na algibeira, o que fazia parecer que tinha o hombro direito mais alto do que o esquerdo.
Devagar, Pélagué caminhou até um banco, sentou-se lentamente, com precaução, como se receasse quebrar alguma parte do corpo. A sua memória, despertada por um agudo presentimento de desgraça, evocava dois aspectos d’este homem: o primeiro datava do dia da evasão de Rybine; o outro, da vespera. Lembrava-se ter visto no tribunal, ao lado d’aquelle individuo o agente de polícia a quem fornecera a errada indicação sobre o caminho que Rybine tomára na sua fuga. Tornára-se pois conhecida, andava vigiada, era certo!
—Estarei eu apanhada? perguntou a si mesma. E respondeu, sentindo-se estremecer: «Talvez ainda haja meio... Não, decididamente estou apanhada, não ha nada a fazer...»
Olhou em roda, mas não viu nada suspeito. Uma apóz outra, como scentelhas, surgiam-lhe e apagavam-se-lhe várias idéas dentro do cérebro.
—Deixar a onda?... Ir-me embora?