Mas logo outra scentelha mais viva brilhou: «As palavras do meu filho... atiral-as assim fóra! Deixal-as em semelhantes mãos!»

E chegou a mala mais para si.

«E se eu agarrasse n’ella e deitasse a fugir!...»

Chegava-lhe a parecer não serem seus os próprios pensamentos, que alguem lh’os introduzia no cerebro, á fôrça. Eram como queimaduras a corroerem-lhe dolorosamente a cabeça e o coração, levando-a para longe de si mesma, para longe de Pavel, de tudo o que já fazia parte integrante do seu coração. Sentia que uma fôrça hostil a opprimia obstinadamente, lhe pezava nos hombros e no peito, a aviltava, mergulhando-a em frio terror. Incharam-se-lhe as veias das fontes, subiu-lhe á cabeça intenso calor.

Então, d’um só impulso vigoroso que a ergueu de chofre, suffocou em si todos estes lampejos de tibieza, covardes e astuciosos, ordenando a si própria com autoridade: «Não sejas a vergonha do teu filho!»

Aos seus olhos appareceu então um olhar tímido e desconsolado. Passou-lhe pela memória a imagem de Rybine. Estes poucos segundos de hesitação bastaram para fortalecer n’ella todas as crenças. O coração pulsou-lhe com mais regularidade.

—Que irá acontecer? perguntou a si mesma, olhando em torno.

O espião acabava de chamar um guarda; segredava a este o que quer que fosse, designando-a com o olhar. O guarda observou Pélagué e recuou. Approximou-se outro guarda e pôz-se a escutar o que diziam. Era um velho robusto, grisalho e de comprida barba. Fez um signal com a cabeça ao espião e adiantou-se para o banco em que Pélagué se sentava. O espião desappareceu como por encanto.

O velho caminhava sem pressa alguma, perscrutando attentamente com olhar irritado a fisionomia de Pélagué. Ella encolheu-se toda no fundo do banco.

«Com tanto que não me batam!... Deus permitta que não me batam!»