Parecia a Pélagué ter na frente como que um férvido cachão e que todos estavam prontos a compreendel-a e a acredital-a. O seu desejo era dizer ali, depressa, tudo o que sabia, todos os poderosos pensamentos que lhe subiam harmoniosamente, sem esforço, do âmago do coração; mas faltava-lhe a voz, não lhe saíam do peito mais que sons roucos, entrecortados e trémulos.
—A palavra do meu filho é a palavra pura d’um filho do povo, d’uma alma integra! Pela audacia se reconhecem os que são íntegros; pela verdade, quando ella o exija, sacrificam-se intrepidamente!
Entre o ajuntamento, olhos juvenis fitavam-na, a um tempo com entusiasmo e terror.
Recebeu uma pancada no peito, cambaleou e caíu para cima do banco. Por sobre as cabeças agitavam-se as mãos dos guardas, os quaes agarravam brutalmente os circumstantes pela nuca ou pelos hombros e atiravam-nos para o lado, arrancavam das cabeças os bonnés e arremessavam-nos ao longe. Pélagué sentiu confundirem-se e vacillarem as coisas em frente dos olhos, mas dominou a fadiga e serviu-se ainda da pouca voz que lhe restava.
—Povo, reune as tuas fôrças em uma só fôrça!
Caíu-lhe no pescoço e saccudiu-a a mão enorme e encarniçada d’um guarda.
—Cala-te!
Foi bater com a nuca de encontro á parede. Durante um instante, teve o coração envolvido n’uma névoa de ardente terror, mas este vapor logo se dissipou ao entusiasmo que a aquecia.
—Anda para a frente! disse o guarda.
—...Não ha soffrimento mais amargo que o que dia a dia devora o coração e exaure o peito...