—Mostraram-se decididos. Foi como se dissessem: «Faça a sua obra, Excellencia, que nós faremos a nossa!» O russo-menor tambem é um rapaz como se quer. Ás vezes, na fabrica, quando o ouvia falar, pensava: «Este não é para se deixar esborrachar, não! Só a morte poderá vencel-o. Tem um bigode, o typo!» Não acha, Pavel?
—Acho! respondeu, movendo a cabeça affirmativamente.
—Ora bem... Tenho quarenta annos, o dobro da tua edade; tenho visto vinte vezes mais do que tu. Fui soldado durante mais de trez annos; fui casado duas vezes; morreu-me a primeira mulher; deixei a segunda. Estive no Caucaso, vi os Doukhobors... Não souberam vencer a vida, irmão! oh! não souberam!
Pélagué escutava avidamente estas palavras; era-lhe agradavel vêr um homem de edade respeitavel procurar o filho como para confessar-se. Achava, porém, que Pavel o tratava com demasiada seccura, e para destruir esta impressão, perguntou a Rybine:
—Talvez tenhas vontade de comer alguma coisa, Mikhaíl Ivanovitch?
—Não, obrigado. Já ceei. Com que então, Pavel, pensas que a vida não vae por bom caminho?
O rapaz levantou-se e passeando, com as mãos atraz nas costas:
—Qual! Por magnifico caminho! E tanto assim que elle o trouxe até mim, agora que tem a sua alma francamente aberta. N’este caminho, a vida une-nos, pouco a pouco, a todos nós que trabalhamos incessantemente; e tempo virá em que ha de unir-nos a todos! As coisas acham-se dispostas de uma maneira injusta e penosa para nós; mas é a propria vida que nos abre os olhos, descobrindo-nos o que encerra amargo; é ella propria que mostra ao homem como lhe deve dirigir a norma.
—É verdade! Mas espera! É preciso renovar o homem. N’isto creio eu! Quando se apanha sarna, a gente toma banhos, lava-se, veste-se com asseio e fica bom, não é assim? Mas se a sarna ataca o coração, podemos por acaso arrancar-lhe a pelle, ainda que ficasse sangrando? podemos laval-o, vestil-o de novo? an? Então, como purificar o homem por dentro? O quê?
Pavel falou calorosamente de Deus, do imperador, das auctoridades, da fabrica, da resistencia que os trabalhadores do estrangeiro oppunham áquelles que queriam limitar os seus direitos. Rybine sorria por vezes; depois batia com o dedo na meza, como para pontuar o discurso de Pavel, sem comtudo deixar de dizer de quando em quando: