—Vês, Pavel? Não é pela cabeça, mas sim pelo coração que se deve começar. O coração é um logar da alma humana no qual não brota mais do que...
—Do que a razão! acabou Pavel com firmeza. Será só a razão que libertará o homem!
—A razão não dá o poder! replicou Rybine, vibrante e obstinado. É o coração que dá a força e não o cerebro!
Pélagué despira-se e deitara-se sem haver resado. Tinha frio e sentia-se pouco bem. Rybine, que lhe parecera tão sensato, tão correcto, ao principio, excitava-lhe uma reservada hostilidade.
—Herético! agitador! pensava, prestando o ouvido á voz sonora que saía com facilidade d’aquelle peito amplo e forte. Para que veio elle cá?!...
E Rybine ia dizendo, tranquillo e firme:
—Um logar santo não póde ficar vasio. O logar onde Deus vive dentro de nós é atacado; se Elle caír da alma, ficará uma chaga! Ora ahi está! É preciso inventar uma fé nova, Pavel. É preciso crear um Deus justo para todos, um Deus que não seja nem juiz, nem guerreiro, mas sim o amigo dos homens.
—E que outra coisa foi Jesus?! exclamou Pavel.
—Espera!... Jesus não era firme d’espirito... «Affastem de mim este calice...» disse elle. E reconhecia o poder do Cezar. Deus não pode reconhecer uma auctoridade humana reinando sobre os homens, porque elle é que é a omnipotencia! Elle não dividiu a sua alma n’uma parte divina e em outra humana, e visto que confirmou a sua divindade, não carece de coisa alguma humana. Jesus reconheceu tambem como legitimos o commercio e o casamento. Foi injustamente que condemnou a figueira. Que culpa tinha ella da sua esterilidade? Não é por sua culpa que a alma não dá bons frutos. Fui eu que semeei n’ella o mal?
As duas vozes vibravam sem interrupção no quarto, como se se arrojassem uma á outra, combatendo-se em lucta animada e apaixonada. Pavel ia e vinha, a passos largos, e o sobrado rangia sob os seus pés. Quando falava, todos os sons se fundiam no ruido da sua voz; quando Rybine replicava, calmo, tranquilo, ouvia-se o tic-tac da pendula do relogio e o sêcco estalido da neve que roçava com as suas garras agudas nas paredes da casa.