E tendo tomado a respiração, continuou com mais vigor:

—Mas em que me hei de apoiar, no meio dos meus desgostos, eu que estou velha, se me tirarem o meu Deus?

Os olhos encheram se-lhe de lagrimas. Com as mãos trémulas, continuou lavando a loiça.

—Não nos compreendeu, mamã! disse Pavel com suavidade.

—Desculpe-nos! accrescentou Rybine em tom vagaroso, lançando um olhar risonho a Pavel. Esquecia-me de que estás muito velha para ser ainda tempo de te cortarem as verrugas!...

—Eu não falava, de maneira alguma, do Deus bom e misericordioso no qual a mãe acredita, mas sim d’aquelle com que os padres nos ameaçam como se fosse um flagello, e em nome do qual exigem que a grande maioria dos homens se submetta á vontade malevola d’alguns.

—Exactamente! Isso é que é! exclamou Rybine, batendo com o dedo na meza. Transformaram-nos até Deus. Os nossos inimigos lançam mão de tudo quanto lhes sirva para abater-nos. Recordo-te, Pélagué, que Deus creou o homem á sua imagem e semelhança e portanto parece-se com o homem, visto que o homem se parece com Elle. Nós, porém, não nos assemelhamos a Deus, mas sim aos animaes selvagens... Na egreja, o que nos mostram, em logar de Deus, é um espantalho. É mister transformar Deus, purifical-o! Revestiram-no de mentira e de calumnia, mutilaram o seu rosto para matarem a nossa alma...

Falava baixo, mas com espantosa nitidez; cada uma das suas palavras era para Pélagué um golpe doloroso. Sentiu-se assustada por aquella grande cara taciturna enquadrada n’uma barba negra, e o brilho sombrio dos seus olhos tornava-se-lhe insupportavel.

—Ah! Prefiro ir-me embora! disse, sacudindo a cabeça. Não tenho coragem de ouvir taes coisas... Não posso!

E fugiu para a cosinha, emquanto Rybine dizia: