—Continúa sendo o mesmo. Amavel para com todos. Todos brincam com elle. Parece que tem sempre o coração em festa. Custa-lhe a vida, soffre, mas não quer dal-o a perceber.
—E é assim que devem fazer todos! replicou Rybine. Todos nós estamos envolvidos em desgostos como n’uma segunda pelle... Respiramos desgostos... vestimo-nos de desgostos... Não temos de que nos gabar. Nem toda a gente tem os olhos furados, e muitos ha que os fecham de motu-proprio... Quando se é parvo, então sim, não ha remedio senão esperar o soffrimento...
XII
A velha casa parda dos Vlassof attraía de mais em mais as attenções do bairro. Ás vezes um operario apparecia por lá, e depois de ter olhado para todos os lados, cautelosamente, dizia a Pavel:
—Irmão, tu que lês nos livros, deves conhecer as leis. Portanto, explica-me.
E contava qualquer arbitrariedade da polícia ou da administração da fabrica. Nos casos complicados, Pavel remettia o consulente, com duas palavras de recommendação, a um advogado dos seus amigos, e, quando podia, elle proprio dava conselhos.
Pouco a pouco, os frequentadores do bairro foram nutrindo um sentimento de respeito por aquelle rapaz tão commedido, que falava de tudo com simplicidade e afoiteza, que raras vezes ria, que encarava e escutava todos os assuntos com attenção, mettendo-se na embrulhada de qualquer negocio particular e descobrindo sempre o fio que ligava as creaturas umas ás outras por milhares de nós tenazes.
Pélagué via ampliar-se a influencia do seu filho, começava a aprender o sentido dos trabalhos de Pavel, e quando o compreendia, invadia-a uma alegria infantil.
Pavel tornou-se maior na opinião publica por occasião da historia do «kopeck[1] do pantano».
Um grande pantano com pinheiros e bétulas cercava a fabrica como um fosso infecto. No verão, vinham d’elle exhalações amarellentas, opacas, de