Por morte da rainha e do rei, Herculano, que já quasi se affastara do paço, foge e vae isolar-se em Val-de-Lobos.
A historia em Portugal acaba no reinado de D. Pedro V.
Com Luiz I começa essa longa opera-buffa, ridicula e sinistra a um tempo, com um cunho tão enorme de corrupção e de infamia, a que se assiste n'um suffocamento de indignação e lagrimas, que arrastou Portugal a este fim desesperado.
O centenario de Camões foi o unico ponto claro no horisonte negro. Mas Herculano morreu tres annos antes de se realisar esse grande acontecimento nacional--onde Portugal affirmou pela ultima vez a sua força desesperada no meio da agonia.
Herculano, podendo desempenhar um elevado papel na politica portugueza, nada fez. O unico homem em quem elle exercera uma salutar influencia--o rei--morreu, deixando o seu mentor afogado em nojo pelos homens e pela existencia.
N'algumas maneiras de pensar e de sentir, Herculano revelou-se superiormente; depois a nausea pela vida e pelos viventes, communicou-lhe esse desprezo que pareceu tão grande porque tombava de muito alto, e lhe deu o cunho d'intransigencia e de força, n'um tempo em que todos são maleaveis e fracos.
Analysei as manifestações intellectuaes da altiva personalidade a quem a burguezia idolatrou, mais por ouvir contar certas particularidades rudes do seu viver, do que por lhe ter lido as obras.
Homem d'um seculo convulsionado e contradictorio foi, como elle, impersistente e convulsivo. O critico exclusivista que condemnasse qualquer obra por trazer uma rajada d'azedume, esquecendo-se da epoca em que foi feita, seria tão extraordinario como o medico que quizesse persuadir um agonisante de que estava curado.
É impossivel exigir d'alguem que seja alegre, que tenha saude e fé em tempos de tristeza, de desalento e de duvida.
Herculano podia repetir a phrase d'um homem muito diverso d'elle, o melancolico Amiel: «sem ter ainda morrido, sou uma alma d'outro mundo; os outros parecem-me sonhos, e eu sou um sonho dos outros.»