O trabalho sobre a descentralisação municipal da idade-media, inserto no 4.º volume da Historia tem sido, até hoje, considerado como obra definitiva.
O peso da investigação carregara a indole d'este homem d'estudo; o seu cerebro transbordou. Planeando apenas escrever sobre Portugal na idade-media, viu que podia alargar os seus trabalhos; mas a polemica provocada pela publicação do 1.º tomo da sua Historia, serviu-lhe de pretexto para fingir que truncava um trabalho, que elle mesmo talvez--apenas um momento--pensasse em proseguir.
V
O POLITICO
Quando em 1840 Herculano foi eleito deputado por Cintra, teve occasião de pedir a palavra no parlamento; tinha uns apontamentos que consultava, á medida que ia falando.
O que seria a camara dos deputados em 1840?
Cheia d'abbades somnolentos, de provincianos ridiculos, de bachareis grotescos e analphabetos inconscientes, não é hoje muito facil fazer uma idéa approximada do que era então esse antro de palradores.
No meio do discurso, um pouco interrompido, do deputado por Cintra ouviu-se o grito de: «larga a sebenta!» que produziu o riso contido d'aquella camara patusca. O homem que pronunciou esta phrase symbolisou depois a tagarelice parlamentar e petulante no seu apogeu; palrou durante vinte e tantos annos, acclamado por uma burguezia que lhe admirava a cabeça e a careca, fez discursos que são o mais irresistivel narcotico dos poucos que teem a coragem de consultal-os, morreu conhecido e feliz. Tem duas estatuas--uma defronte de S. Bento, d'essa casa de cuja inutilidade prejudicial elle foi o mais triste e curioso symbolo, outra em Aveiro. Chamou-se José Estevão.
Alexandre Herculano, ferido no seu orgulho, nunca mais quiz frequentar aquella feira de gado.
Os seus trabalhos resumbram todos um invencivel rancor aos politicos e á politica. A sua indole triste sombreou-se. O despeito e o tedio azedou-lhe o caracter. Adivinhou a vulgar corrupção que se alastrava por todas as classes e, com a integridade inherente ao seu espirito, fugiu. Esta deserção d'um campo, onde o paiz lhe podia merecer tantos serviços, era inevitavel. O presente não o tentava. Com uma ancia vulgar nos espiritos que chegaram ás cumiadas da cultura intellectual, tentou brutificar-se na vida do campo, beber a grandes tragos a alegria que a natureza entorna na alma dos animaes e das plantas. Mas estava muito intellectualisado.
O brado que levantou a favor dos monges e dos padres pobres, foi recebido pelos livres-pensadores burguezes como uma contradição com os ataques na celebre questão Eu e o Clero. A Herculano, temperamento religioso por educação, repugnava, o abandono e a miseria em que o governo deixara os antigos frades, negando-se mesmo a pagar o insignificante subsidio que promettera aos que se secularisassem. Á sua indole, estreita e inquebrantavel em questões de rectidão, custava a comprehender que os ministros renegassem todos os programmas com que subiam ao poder e faltassem a todas as promessas, como se elles tivessem sido inventados para outra cousa! Esta surpreza n'um homem ambicioso, transformou-se mais tarde n'um rancor que, nos ultimos annos da sua vida, se affogou em desprezo por tudo que dissesse respeito á politica. D. Pedro V, de quem Herculano foi o mentor, consultava-o a miudo sobre os negocios do estado e a maneira de resolvel-os. Herculano gostava d'este papel de ministro do culto e, póde affiançar-se que se o tivesse exercido por mais tempo, muitos dos que elle desprezava, teriam sentido por detraz do manto do rei, a pata do leão, atirando-os á insignificancia d'onde nunca deviam ter saido. Este poder, exercido por um mais longo prazo, se o reinado de D. Pedro V tivesse sido duradouro, é forçoso dizel-o, embora não muito democratico, seria benefico e talvez evitasse a lenta agonia em que Portugal agora se revolve. Mas quiz o destino que tal não succedesse. Herculano, apenas chegou a Lisboa a rainha Estephania, sentiu o espirito accesso em ciume contra a mulher que ia dominar o rei com o mesmo, ou talvez maior, prestigio com que elle--o grande intellectual--tinha dominado. Este resentimento explica-se bem: Herculano olhava D. Pedro com o carinho affectuoso d'um pae e, o que mais é, d'um pae que houvesse podido identificar á sua alma a alma d'esse filho do espirito. A rainha fôra para a indole religiosa e casta de D. Pedro a esposa, a symbolisadora do amor santo; Herculano julgou que ella vinha roubar-lhe uma parte do dominio que elle exercia no rei--e odiou-a. Este odio, comprehende-se bem, nunca revestiu as formas bruscas d'um completo rompimento; e, como provinha d'um sentimento do espirito que, se não era muito elevado, estava muito longe de ser mesquinho, manifestou-se apenas por pequenos embates de palavras e dois ou tres casos anecdoticos mais ou menos conhecidos.