«É por que sabes que esse amor não pôde perecer, que esse amor é como um fado escripto lá em cima--interrompeu D. Fernando--que tu me fazes tingir as mãos de sangue, para satisfazer as tuas crueis vinganças; é por que sabes que esgoto sempre o calix das ignominias quando as tuas mãos m'o apresentam, que me sacias de deshonra. Terás, acaso, algum dia piedade d'aquelle que fizeste teu servo, e que não póde esquivar-se a ser tua victima[2].»
[2] Lendas e Narrativas, 1.º vol. Lisboa, 1865.
O sombrio Egas, despedindo-se de Dulce, diz-lhe:
«Vae-se o vulto do meu corpo
Mas eu não;
Que a teus pés cá fica morto
O coração.»[3]
[3] O Bobo, pag. 145, Lisboa, 1878.
Herculano tocou como poucos na eterna chaga da alma apaixonada:--a duvida, a desconfiança. E como o ciume e o desespero se manifestam psychologicamente n'uma inalteravel uniformidade em todas as epocas, segue-se que um Egas, um Fernando, um Vasco, um Eurico, são typos caracteristicos dos amorosos e tristes.
IV
O HISTORIADOR
Vimos como as principaes figuras intellectuaes do começo do seculo penderam para as reconstituições do passado. Em Inglaterra Hume abrira no seculo anterior a corrente que depois Lingard e Macaulay proseguiram; em França Augustin Thierry, Quinet, Guizot dão aos estudos historicos uma nova phase. Herculano seguiu esta corrente, que dominou toda a obra. O investigador surgiu primeiro do que o poeta ou poeta fez surgir o investigador? Um e outro apparecem tão confundidos em todos os seus livros que é impossivel responder á interrogação. Que o historiador não destruiu a alma poetisadora, vê-se logo no 1.º volume da Historia de Portugal, que fecha com estas saudosas palavras sobre o nosso primeiro rei:
«Se uma crença de paz e de humildade não consente que Roma lhe conceda essa corôa, outra religião tambem veneranda, a da patria, nos ensina que, ao passarmos pelo pallido e carcomido portal da igreja de Santa Cruz, vamos saudar as cinzas d'aquelle homem, sem o qual não existiria hoje a nação portugueza, e, porventura, nem sequer o nome de Portugal.»