Os romances mesmo e as memorias, que tão cultivadas teem sido nos ultimos cincoenta annos d'este seculo, são apenas variedades da historia e da critica. O pensamento do romancista é identico ao do critico e do historiador. Tem de documentar e historiar um meio, uma epoca, onde se agitam personagens contemporaneos ou remotos. É assim que nos livros do sr. Henry James, n'esses pequenos contos, que nos parecem rabiscados na meza de fumar d'algum rico hotel das grandes cidades, está toda a vida, toda a ancia, toda a nostalgia, e todas as hesitações nervosas d'essa geração fluctuante, que emigrou para a America, se regenerou e fortificou ao contacto d'outro meio e d'outro clima, e só se definha e soffre, quando inveja e macaqueia essa velha Europa, onde tantos vêem matar as saudades e desedentar a sede dos vicios morbidos que herdaram.
Quando ha cincoenta annos appareceu o Monge de Cistér, o romance historico não existia em Portugal. Como reflexo pallido da litteratura ingleza, apparecera entre nós uma ou outra tentativa isolada e obscura. Foi Herculano que o vulgarisou; elle mesmo nas Lendas e Narrativas o confessa, orgulhando-se que os seus ensaios provocassem a publicação do Arco de Sant'Anna, do Anno na Côrte, Odio Velho, O Conde de Castella, Irmãos Carvajales, O que foram Portuguezes. Estes trabalhos, excepto o primeiro, são productos mediocres de cerebros cançados; a curiosidade que os recebeu tombou, com o tempo, em gelida indifferença.
Quem lê os romances d'Herculano não póde procurar n'elles nem a analyse da vida, nem mesmo o estudo exacto da epoca em que se passam. O poeta triumpha sempre e, se aqui e ali, apparece o historiador--ou melhor o cerebro transbordando de conhecimentos historicos e obrigado a revelal-os em tudo quanto escrevesse--o visualisador sempre nos arrasta e empolga com as suas illusões. O que vibra com uma intuição admiravel nos seus romances, é a nota desesperante do amor. As paixões d'esses personagens eram um fogo que os minava e consumia. A religião e o despotismo medieval carregaram ainda mais funebremente o espirito dos barbaros. Qualquer sentimento que os escravisasse, era para esses brutaes uma força, como que sobrehumana, contra a qual luctavam, subjugados pelas superstições e pelos prejuizos. O Egas Moniz do Bobo, o Eurico, o Vasco do Monge de Cistér, o D. Fernando das Arrhas por fôro d'Hespanha são entes que se movem na vida sob a acção dominadora d'um amor, tão despotico como a tyrannia d'essa idade de ferro. Estes amorosos são como leões algemados que a cada instante rugem o seu desespero.
O sempre triste Eurico[1] escreve a Theodemiro:
«Examina bem a consciencia e diz-me qual é para os corações puros e nobres o motivo immenso, irresistivel das ambições do poder, da opulencia, do renome? É um só--a mulher: é esse o termo final de todos os nossos sonhos, de todas as nossas esperanças, de todos os nossos desejos. Para o que encontrou na terra aquella que deve amar para sempre, aquella que é a realidade do typo ideal que desde o berço trouxe estampado na alma, a mira das mais exaltadas paixões é a aureola celestial que cinge a fronte da virgem, idolo das suas adorações.»
«Tirae do mundo a mulher, e a ambição desapparecerá de todas as almas generosas. Realidade ou desejo incerto, o amor é o elemento primitivo da actividade interior; é a causa, o fim, e o resumo de todos os effeitos humanos.
Theodemiro eu amei como ninguem, talvez, ainda amára. Este amor foi desprezado e ludibriado e, depois, comprimido pelo desprezo e pelo ludibrio no fundo do coração do teu pobre amigo. Sabes o que faz um amor immenso assim recalcado?--Devora e consome o futuro e entenebrece para sempre o horisonte da vida. Nada ha, depois d'isso, que possa restaurar o que elle tragou: nada que possa rasgar as trevas que elle estendeu. No mesmo sepulchro não ha porvir d'esperança, nem, porventura, luz de consolação; porque o passamento do corpo precedeu a morte do espirito.»
[1] Eurico pag. 76, Lisboa, 1864.
D. Fernando, o doloroso apaixonado, conhecendo a ignominia a que desceu, diz a Leonor Telles: