Alexandre Herculano nasceu no Pateo do Gil, na rua de S. Bento, em 28 de março de 1810. Estudou com os padres de S. Filippe Nery, nas Necessidades; mas em 1831 envolveu-se na revolta do 4 d'infanteria contra o governo de D. Miguel e teve de fugir de Lisboa a bordo da fragata franceza «Melpomène.» D'aqui embarcou num navio inglez e visitou Plymouth, Folmouth, Jersey, S. Malô, Rennes, Granville. Tomou parte na expedição do Mindello. Em 1833 foi nomeado bibliothecario da bibliotheca do Porto, logar que conservou até 1836, data em que, espicaçado já pela mania burgueza do «descargo da consciencia e dos deveres cumpridos», se demittiu para não prestar juramento ao governo da contra-revolução. Em 1837 publica a «Voz do Propheta» e dois annos depois é nomeado pelo rei Fernando seu bibliothecario. É nesta epoca que dirige e escreve no «Panorama», onde publicou numerosos artigos, incluindo os romances: «O Monge de Cistér», «o Eurico», «O Bobo», «A Dama do pé-de-cabra», «O Parocho d'Aldea», etc, etc. Este periodo vae até 1846, em que sae o 1.º tomo da «Historia de Portugal», contendo as origens historicas de Portugal até ao reinado do 1.º rei; em 1847 apparece o 2.º que alcança até ao reinado de Sancho II; em 1849 o 3.º, que vae até D. Diniz; em 1853 o 4.º, que trata da descentralisação municipal. Depois publica a «Historia da Origem e Estabelecimento da Inquisição». Em 1853 é encarregado de dirigir a publicação dos «Monumentos Historicos de Portugal» com a dotação annual de 1.000$000 de réis. Como porém em 1856 fosse nomeado guarda-mór da Torre do Tombo um tal Joaquim José da Costa Macedo, Alexandre Herculano, que o odiava e estava muito atacado da monomania da perseguição, demitte-se de socio e secretario perpetuo da Academia, affirmando que «não podendo entrar no archivo da Torre do Tombo deixava por isso de trabalhar nos «Monumentos!» A Academia em outubro do mesmo anno reelege-o, e em dezembro nomea-o vice-presidente, mas Herculano escreve nova epistola persistindo no seu proposito, Na questão «Eu e o clero» leva ao apogeu essa monomania da perseguição, que toda a vida o dominou. Em 1861 regeita a nomeação de par do reino; em 1862 a de grã-cruz de S. Thiago, ordem que ultimamente se tem pendurado ao peito d'alguns actores. Ao regeitar esta ultima mercê, escreve com pacata ironia:

«No immenso consumo que se está fazendo, que se tem feito ha 30 annos, de distincções, de fitas, d'insignias, de fardas bordadas, de titulos, de graduações, de tratamentos, de rotolos nobiliarios, o homem do povo que queira e possa morrer com esta qualificação deve adquirir em menos de meio seculo extrema celebridade».

Em 1867, enojado do viver, recolhe-se a Val-de-Lobos, a celebre quinta perto de Santarem em que se dedicou á cultura do azeite. Vinha a miudo a Lisboa e os seus logares predilectos eram a livraria Bertrand e a casa do duque de Palmella. De vez em quando quebrava o silencio a que se obrigou, publicando um ou outro opusculo sobre as questões d'occasião.

A 13 de setembro de 1877 morre em Val-de-Lobos, victima d'uma pneumonia. E doze annos depois é transferido da egreja d'Azoia, com official solemnidade, para os Jeronymos, onde hoje repousa num sumptuoso mausoléu, quasi visinho do tumulo mais modesto que Portugal reservou aos suppostos ossos de Camões.

É costume dizer-se com algum abuso da metaphora, que ha mortos que se resuscitassem, vendo os escandalos contemporaneos, tornariam a morrer de vergonha. Qualquer critico carrancudo podia, seguindo esta tradicção, affirmar com algum bom senso que, se Herculano resuscitasse quando o trasladaram de Azoia para Belem, correria o discursador e os assistentes a cacete.

I
IDÉAS GERAES

Pontifice das lettras, Alexandre Herculano não teve, como muitos, a benevolencia, a fraqueza, uma cynica bondade de confundir os mediocres e os de talento; e perseguiu com o seu rancor todos os que a inutilidade levantara, elevados pela politica, pela camaradice, pela intriga. Foi um amarguroso e um triste. Por despeito? por tedio da sua epoca? por cançaço do seu espirito! Interrogações irrespondiveis, antes de se analysarem as causas que levantaram este homem á imminencia, d'onde nunca cahiu, e d'onde tanta vez lançou sobre o seu tempo os threnos e as maldições d'um propheta que não pede perdão para a miseria humana, antes invoca a colera de Deus sobre as velhas cidades corrompidas. Ezequiel d'uma epoca indigna de historia, só começou a rugir, não por mando de Jehovah, mas depois de conhecer os homens e de se ter entediado d'elles. O seu temperamento soturno, a sua mente convulsiva, o seu caracter d'uma rectidão, tão inabalavel, tão egoista--que hoje nos chega a parecer estudada--eram o producto d'uma hereditariedade que nunca se desmentiu e lhe deu esse bello cunho de portuguez, inquebrantavel e forte.

Aos vinte annos, viu-se obrigado, por uma revolta militar do corpo a que pertencia, a refugiar-se no estrangeiro, por onde pairou algum tempo, visitando a Inglaterra e a França. Não sei se foi decisiva para a sua vocação essa viagem; o estado em que então se encontrava a Europa pode fazel-o crer. Uma outra era abria-se aos espiritos inquietos e convulsionarios. As nações, que durante quarenta annos se tinham agitado em guerras terriveis, nas epicas campanhas de Bonaparte, nas guerrilhas da Italia, na politica da Austria, sentiam a necessidade de pacificar-se. Começou pois a revolução na arte.

O inquieto Chateaubriand e o desesperante Byron tinham feito as suas obras no meio das agitações d'essa Europa, de que elles invocaram o passado, poetisando-o com as saudosas melancolias que desperta em todas as mentes doloridas. Na Allemanha Goethe e os irmãos Schlegels, Leopardi na Italia, cunhavam os seus escriptos com esse desespero de descontentes, de sempre tristes. O sol das batalhas apagara-se em Santa Helena ao mesmo tempo que o sol da poesia expirava ao avistar a Grecia, que ia libertar. Bonaparte e Byron foram os deuses d'essa geração; e, para completar a trindade, poder-se-hia juntar-lhe Leopardi. Mas o poeta do Amor e da Morte, o atheu sem esperança, o heroico resignado, não teve a influencia dos dois primeiros, nem a quiz. O vencedor de Marengo e o poeta de Manfredo, convulsivos e desesperados, tiveram o enthusiasmo e a acção; o triste que escreveu essa admiravel elegia ao Passaro Solitario, em nada acreditava, senão na inutilidade da vida e no repouso da morte. Não era portanto um guia que escolhessem os que viam a existencia mais complicadamente.