Byron, Vigny, Goethe, Musset, Shelley, Moore, Hugo, punham no que escreviam a nostalgia d'epocas remotas da historia, que elles lembravam com saudade. Outras indoles, partilhando o mesmo enthusiasmo, tentaram estudar esses seculos para reconstituil-os com os documentos e as memorias. D'aqui a historia e o romance historico.

O seculo XVIII foi para Portugal e para França o seculo da decadencia da arte.

Entre nós, á poesia das escolas chamadas italiana e hespanhola succedeu a Arcadia, agrupamento onde alguns vates semsaborões e massadores inventavam os meios de torcer a lingua em versos duros e corneos. A Francisco Rodrigues Lobo, a Sá de Menezes, a Santa Ritta Durão succederam Antonio Diniz, o engraçado do Hyssope, que hoje ninguem lê sem bocejar, o barbeiro Quita, Garção, Francisco Dias Gomes, e o nunca esquecido Filinto Elysio, o mais monstruoso escangalhador da simples e bella lingua portugueza, o mais inevitavel hymnifero de pindaricas, de epithalamios, de dithyrambos. Na prosa o abysmo era tão profundo: depois de Francisco Manoel de Mello, de fr. Luiz de Souza, de Manoel Bernardes, o padre Theodoro d'Almeida e o Candido Lusitano!

O seculo XIX iniciou-se sem presagios de mudança. O velho Lafões na Academia chamada das sciencias, fazia propaganda hypocrita das graçolas semsaboronas de Voltaire; mas, cousa sempre digna de ser observada nos philosophos portuguezes que applaudiam os encyclopedistas:--todos assistiam ás novenas, aos lausperennes, ás procissões com que n'essa epoca caprichavam em passar o tempo. A essa Academia podia-se juntar outra, tambem ainda florescente: a Arcadia.

Qualquer d'estas duas corporações eram gremios recreativos, onde o culto das musas era um passatempo e o escrever prosa um trabalho mechanico. Apenas o bilioso José Agostinho, o obsceno Bocage e o assucarado Tolentino, lançavam no concerto de numes uma nota alegre e discordante.

Bocage escrevia:

«Camões, grande Camões, quão semelhante
«Acho teu fado ao meu quando os cotejo!»

Respondia-lhe com uma tremenda descompostura o padre, que queria arranjar um Camões para uso da côrte de João VI e dos frades gracianos. O Tolentino, que nunca entendeu nada de litteratura, rabiscava versos, pedindo jantares e dinheiro.

Não se levantava uma voz dolorosa ou eloquente, um grito de convulsivo desespero, uma poesia d'arrebatadora inspiração. Tudo era pautado, mesquinho, uniforme como uma ceremonia da côrte. O povo apenas, heroico resignado, conservava o grande refugio no desdem e na indifferença. Nenhum vate da Arcadia o cantou; nenhum escriptor punha a penna ao serviço da sua causa, para o despertar. Massa inconsciente, que formigava n'um zumbido, sempre insistente, sempre pavoroso, como onda de temporal quebrando-se em rochedo terrivel--que lhe importava a elle que D. João VI fugisse e os francezes invadissem o reino? Atrophiado durante dois seculos--o decimo septimo e o decimo oitavo da nossa era--que tão inexoravelmente começam a ser julgados por uma historia mais visualisadora--sem poder tirar d'entre os seus uma das altivas figuras que fazem revoluções; enterrado até á crapula, ao asco, á immundice, á lama, mas n'uma immundice quasi aterradora, tanto era enorme, quasi epica, tanto era medonha, ninguem lhe poude infiltrar energia, ninguem lhe soube provocar coragem. Paulino Cabral, Thomaz Pinto Brandão, Bocage poetisaram (e de que maneira!) a viéla, a boneja, a marafona, a meretriz, o frade vicioso e o fadista; Nicolau Tolentino, professor de grammatica e empregado publico, era o cantor dos papelinhos dos frizados das senhoras, das reuniões burguezas, dos chás, dos namoros a altas horas com despejos de fezes em cima do peralvilho embasbacado. Curiosos de certo, caracteristicos, pittorescos mesmo, e muito mais interessantes do que os Arcades, bachareis e magistrados que se apellidavam «pastores» e «cysnes», nenhum ainda assim deu ás obras o cunho e o relevo do talento que as torna impereciveis. E Bocage, José Agostinho, Tolentino eram os que representavam a litteratura livre e sem peias; eram os idolos de que o povo sabia os versos e a vida, e se apontavam nas ruas.

Esses temperamentos que ficam assignalados n'uma epoca pelo amor, pelo heroismo, pela tristeza, pela infelicidade, já Portugal os não podia produzir. As lyricas de Camões e Bernardim Ribeiro, as desditas de Francisco Manoel de Mello, eram substituidas pelas piadas eroticas d'Elmano Sadino e as aventuras burguezas dos dois padres Macedos. Dos humildes que então soffriam, dos resignados que supportaram a vida, não chegou até nós um grito, um arranco, uma palavra. Almas desditosas e obscuras, ninguem soube pôr no papel os vossos desalentos, as vossas dores, as vossas hesitações! Quando a vossa crença era tentada, tinheis Te-Deums para não cairdes na desconfiança do intendente Pina Manique; e para as humilhações heroicas, das vidas obscuras, as suaves melancolias, os crueis desesperos, Filinto Elysio entoava um epithalamio ou um dithyrambo, Bocage versejava sobre um mote brejeiro, Tolentino escrevia a Funcção, etc.