Castilho em 1830 era ainda um arcade, Garrett quasi um ignorado. Em 1837 Herculano publicou anonymamente a Voz do Propheta--uma especie de threnos biblicos, d'uma eloquencia solemne e triste. Ahi se adivinhava a inclinação do novo escriptor para a historia, poetisada pela saudade e pelas recordações. Era a primeira chamma que se ateava n'esse espirito. Altivo, insoffrido e taciturno, resignando-se n'um trabalho em que as mais das vezes tinha de martellar o cerebro e soffrear os impetos da imaginação poetica, é com enthusiasmo e vibração que escreve as paginas mais alentadoras da sua Historia, os quadros mais artisticos e definitivos dos seus romances, os versos mais ricos das suas poesias.
Visitando a Inglaterra e a França, a saudade da patria amargurou-lhe o prazer da forçada viagem. Nas horas vagas d'essa vida de tribulações e cuidados, vida errante, refugiada apenas em longos labores e lentas meditações, pezou bem o seu destino. Tinha um temperamento de ferro; em cousas que a sua vontade decidisse, era inquebrantavel. Não se bandeou na politica, não se apulhou na litteratice. Pobre chimerico! acreditou na honra, desdenhoso dos estadistas e dos parlamentares; teve esperança na arte pura, e cultivou-a como o seu unico idolo. Depois tambem cultivou o azeite de Val-de-Lobos com idolatria, por que estava farto da epoca e dos homens. «Dá vontade de morrer!» disse elle. Hoje qualquer noticiarista, tendo apanhado alguma indigestão de lagosta ou sardinhas, repete a miudo a exclamação, confundindo assim a vontade de morrer com a de vomitar.
Joseph Prudhomme disséra em tempos que «a invasão das diversas attribuições produz em tudo a anarchia», e como elle ainda é autoridade para as classes burguezas e dominantes, não nos é licito duvidar. Que a litteratice ou a monomania litteraria invade tudo e todos, é inegavel. Ainda ha pouco, uma notabilidade medica, o sr. Manoel Bento de Souza, apercebendo-se d'isto, fez no Elogio do Doutor Antonio Maria Barboza a comparação de tres medicos-operadores com tres litteratos, explicando que usava d'esse meio para que os que não entendiam de medicina o comprehendessem melhor.
Imagine-se Sainte-Beuve, Taine e o sr. Oscar Wilde applicando este processo á critica! O esthetico inglez, por exemplo, comparando Morel-Makenzie com Dante Gabriel Rossetti; o philosopho das Origens da França Contemporanea approximando a maneira d'operar de Robespierre (e que medonho operador!) da do velho anatomista Bichat.
Para quê insistir sobre as surprezas que este methodo provocaria a cada momento?
Ao espirito severo d'Herculano, cerrado ao moderno, o espectaculo das contradicções e das inconsciencias da nossa epoca repugnava. Por isso a sua obra foi uma evocação do passado e dos tempos gloriosos. Elle escrevera no Bobo (pag. 13-14) estas linhas:
«Pobres, fracos, humilhados, depois dos tão formosos dias de poderio e renome, que nos resta senão o passado? Lá temos os thesouros dos nossos affectos e contentamentos. Sejam as memorias da patria, que tivemos, o anjo de Deus que nos revoque á energia social e aos sanctos affectos da nacionalidade. Que todos aquelles a quem o engenho e o estudo habilitam para os graves e profundos trabalhos da historia, se dediquem a ella. No meio d'uma nação decadente, mas rica de tradições, o mister de recordar o passado é uma especie de sacerdocio. Exercitem-no os que podem e sabem; porque não o fazer é um crime.
E a arte? que a arte em todas as suas formas externas represente este nobre pensamento; que o drama, o poema, o romance sejam sempre um echo das eras poeticas da nossa terra. Que o povo encontre em tudo e por toda a parte o grande vulto dos seus antepassados. Ser-lhe-ha amarga a comparação. Mas como ao innocentinho da Jerusalem Libertada, homens da arte, aspergi de suave licor a borda da taça onde está o remedio que póde salval-o.»
Cumpriu a missão que impozera ao espirito? É analysando-lhe as diversas phases da obra que se póde responder á interrogação.