II
O POETA

N'uns a poesia nasce com as primeiras illusões da mocidade, os primeiros amores, as suaves chimeras; n'outros, quando as desillusões começam a enevoar a alma, as tristezas a pairar na mente, o coração a seccar-se, a ser fugitivas as horas alegres, continuos e uniformes os dias funebres, e o sopro da traição envenena os amantes, é que a poesia ergue os primeiros vôos, triste e amargorosa, como as aves da tempestade. Dos primeiros são raros os que conservam a frescura e pureza da musa; os annos augmentam, as flôres murcham, e quando se quer voltar, por saudade ou por distracção, ao trabalho mitigador, as palavras embrulham-se, as rimas escasseam e o cerebro torturado só consegue periodos tortuosos e seccos, concepções alambicadas e banaes. Alguns, ensaiando a rima e o verso, procuram adquirir á custa d'um trabalho seguido, a magnifica força da forma solida e quasi definitiva: são os artistas, e as suas estrophes sonoras teem sons musicaes.

Byron, Moore e Shelley alliaram os primores da forma á sublimidade da imaginação. Mesmo a lingua ingleza, dulcificada pela cuidadosa versificação de Milton, Pope, Chatterton e Cowper, attingiu com os grandes poetas do começo d'este seculo uma perfeição inegualavel.

Em França, ao contrario, teve de operar-se um completo trabalho de renovação. Os pequenos abbades libertinos e poetastros, os fazedores de novellas patetas e assucaradas, nunca cuidaram do estylo. O verso cultivaram-n'o os padres Florian e Delile, a quem Rivarol disse uma vez, vendo-o com um rôlo de manuscriptos «Ah, senhor, se não o conhecessem, roubavam-n'o!» A prosa era manejada por Voltaire. Se o enorme talento de Diderot e o doloroso genio de Jean-Jacques, estavam distantes do lodaçal em que se afogavam quasi todos, o chistoso Piron, Gresset e toda essa horda de pandegos semsaborões, concorreram para escangalhar a lingua, que Montesquieu, La Fontaine e os escriptores ligados pela tradicção aos do seculo XVII, tinham enriquecido.

Coube a gloria d'iniciar essa revolta contra as velhas formas, a estreita syntaxe, a poetica convencional e restricta, ao homem contradictorio e enigmatico que se chamou Chateaubriand.

Em 1801 appareceu o Genio do Christianismo. A geração inquieta e guerreira, exhausta da materialidade dos insipidos deuses do seculo anterior, comprehendeu que nascera um escriptor, um coração insoffrido, um espirito pairante. A forma d'esse livro é quasi classica; mas no emtanto, atravez aquellas paginas, quanta melancolia, quanta amorosidade; ás vezes phrases dignas de Shakespeare, Balzac ou Byron, como essa do episodio de René: «foule, vaste désert d'hommes!»

Hugo veio fazer no verso o que Chateaubriand fizera na prosa; deu á lingua assucarada e debil, vibração, enthusiasmo e consistencia.

Appareceu ainda outro, embebido nos poetas inglezes, um cysne, mirando-se nos limpidos lagos de crystal, com o olhar todo offuscado pelas grandes paysagens dos Pyrineos. Era Vigny, o cantor d'Eloa e Dolorida, o philosopho da Colera de Sansão, esse grande e symbolico poema do fatalismo no amor, que começa pelos versos celebres:

«Prés de ce compagnon, dont le coeur n'est pas sur
«La femme, enfant malade et douze fois impur.»

Estes revolucionarios deram á prosa e ao verso uma symetria, uma profundeza, uma sumptuosidade desconhecida.