1763 ... 9:683
Somma ... 107:095
Para augmentar 82 pipas sómente na exportação ingleza (que nas outras foi grande{28} a diminuição depois do monopolio) mandou Sebastião de Carvalho enforcar, açoitar e degradar a enorme porção de desgraçados, que além de terem fome, pagáram com a vida, com o corpo, com a saude e com o dinheiro a mania reformadora do delirante mostrengo. Ha a fazer um estudo pathologico sobre o coração e o cerebro d'este homem verdadeiramente extraordinario n'uma qualidade unica:—a suprema crueldade. Elle era um bicho estranho, que n'outro qualquer paiz seria considerado como um delirante furioso, mas que em Portugal é ainda tido—graças aos historiadores que fazem historias!—um ministro providencial.
Alguns historiadores, entre elles o snr. Pinheiro Chagas, afiançam com uma ingenuidade indesculpavel que Sebastião de Carvalho, indignado com o procedimento do escrivão da alçada, José de Mascarenhas, filho de João Mascarenhas Pacheco, o bom e fraco homem, e não podendo punil-o n'essa occasião sem comprometter-se, deu-lhe uma commissão no Brazil, como desterro simulado, reservando-se para mais tarde o prender, o que fez com effeito em 1758. Sebastião José de Carvalho indignado{29} com um sujeito por suppôr que elle levava o zelo e a emulação a ponto de querer igualal-o! Se isto não é para fazer rir. Dir-se-ia que o ministro não queria rivaes n'uma qualidade em que elle realmente não os tinha. Mas José de Mascarenhas estava longe de aspirar a semelhante rivalidade. Elle era um pouco menos fraco do que o pai, mas foi sempre durante o processo o fiel e talvez o brando executor das ordens tremendas do ministro.
Os historiadores que imaginam que um sujeito, que servia sob as ordens de Carvalho, podesse metter «crueldade de sua casa», são muito ingenuos e muito ignorantes. As ordens do ministro eram formaes: «que considerasse o crime como de lesa-magestade, que mandasse enforcar os cabeças do motim, açoitar, degredar e roubar os outros».
José de Mascarenhas ainda teve a condescendencia de perdoar a forca á mulher gravida. Os que desejem saber os motivos da prisão de José de Mascarenhas leiam o Perfil do Marquez de Pombal pelo snr. Camillo Castello Branco. Tendo pouco espaço, não me posso occupar de assumptos menos importantes que digam respeito á{30} crueldade de Pombal; por isso, lendo o livro do maior escriptor portuguez d'este seculo, encontrarão desfiada a meada em que se enredáram historiadores de talento.
*
O ministro por essa época já começava a ter jesuitas a cavallo no seu porquissimo nariz—immundo e purguento deposito de rapé e de ranho.
Accusou os jesuitas de terem incitado o povo á revolta fazendo-lhe suppôr «que os vinhos vendidos pela Companhia não eram proprios para a celebração do santo sacrificio da missa».
O porcalhão tinha maravilhosos pretextos, sufficientes talvez para lhe provarem o grau de intelligencia.