Os jesuitas nunca poderiam dizer tal coisa, porque, segundo o costume de todas as ordens religiosas, usavam nas missas vinho preparado por elles.
Appello para o testemunho de todos os padres pertencentes a ordens religiosas. E se os jesuitas dissessem o que o Sebastião lhes attribuiu, não mentiriam. A Egreja ordena, sob pena de inutilidade do sacrificio,{31} que o vinho, que o padre tem de benzer, seja natural, puro, sem mistura alguma. Ou pelo menos o padre deve ter a consciencia de que o é. Os jesuitas e os padres d'aquelle tempo não podiam ter a consciencia d'isso, porque sabiam que o vinho da Companhia era falsificado com misturas reles.
O fallecido escriptor Francisco Luiz Gomes no seu livro Le Marquis de Pombal, explica que a Companhia não melhorou os vinhos nem impediu as misturas, que ella mesma fazia, tomando apenas o monopolio da adulteração. Não era preciso o testemunho. Quem quizer ter mais conhecimento das manhosas trapalhadas do ministro consulte os manuscriptos insuspeitos da bibliotheca de Lisboa.
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Burguezes que lêm as declamações de historiadores mellifluos, acreditam ingenuamente que foi Pombal e a sua energia quem reedificou a capital, depois do terremoto de 1 de novembro de 1755.
Em Portugal quantos terremotos não houve antes do de 1755? E medonhos e terriveis. E as cidades reedificávam-se, sem{32} que o nome dos ministros de então fosse sequer citado. N'uma miscellanea de manuscriptos que possuo, descreve-se um terremoto na ilha Terceira em 1614, maio, succedido «durante o tempo em que se póde resar um credo». Abriu-se a terra, sumiram-se casas, cresceu o mar, morreram mil e mil almas sepultadas nas ruinas e sumidas pelas voragens, eis o que diz a narração.
Carvalho fez o que qualquer faria. Os architectos dos Arcos das Aguas-Livres e do palacio de Mafra não seriam mais do que competentes para construirem os paredões funebres e alinhados da rua do Ouro, da rua Augusta e rua da Prata?
O que pertence ao marquez—e traz o cunho indelevel d'esta individualidade—são os avisos mandados expedir depois do terremoto. Isto sim, é original d'elle. Mandava que se prendessem todas as pessoas suspeitas, que se enforcassem os ladrões e os que fossem encontrados com quantias superiores, e lhes expuzessem os cadaveres na forca durante tres dias. Ordem providencial e hygienica! Tambem lhe cabem as honras do monopolio da escravatura branca que elle empregava mandando trabalhar{33} nas obras da cidade bandos de operarios com fome, chicoteados e mal remunerados.
Tudo isto é d'elle; e, se os democratas que hoje applaudem o ridiculo despota, soubessem as ignominias, a fome e os rebaixamentos soffridos pelo povo durante o reinado do idolo, talvez esfriassem o enthusiasmo com que ha sete annos lhe celebraram o centenario.
Porque—que isto se saiba!—quando este homem se retirou do poder deixando o erario cheio de milhões, o povo e o exercito soffria fome![[5]]