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Quando Sebastião de Carvalho começou o ajuste de contas com os jesuitas, já as côrtes da Europa mostravam descontentamento a esta Ordem, a mais zelosa, a mais pugnadora pelos interesses da Egreja.
Em Hespanha, ministrava Aranda. Em França, Choiseul, um emplasto, um intrigante{34} que troçava espirituosamente das patifarias solemnes de Sebastião de Carvalho. Coroava este cenaculo um philosopho que as gravuras do tempo apresentávam com um sorriso saloio de creado de servir em dia de banquete. O defunto Voltaire, de quem o leitor ha de talvez ter ouvido fallar, como dizia Rivarol, era um homemzinho que monopolisava o espirito nos salões do seculo XVIII, o grande seculo da conversação. Monopolio facil:—monopolio do espirito dos outros:—de Rivarol, de Diderot, de Chamfort. Desastrado artista, mau poeta, mau romancista, mau dramaturgo, mau critico, horroroso estylista, e por todas estas razões declarado genio, homem encyclopedico, apostolo sublime, e alojado no Pantheon, onde hoje repousa com o nojento e impotente Rousseau ao lado de Victor Hugo!
Ironia medonha! O homem que no seculo XIX mais enthusiasmo, mais estylo, mais arte, mais energia moral, dispendeu na factura de um monumento de poesia, cofre á prova de fogo onde estão guardados todos os versos torturados, todas as perolas da poesia, todas as phrases filtradas, junto dos dois que com o seu cynismo{35} mais concorreram para o descredito da grande arte. Homens criminosos porque não esforçáram o talento que tinham e porque consentiam que desperdiçassem a grande faculdade da admiração os que os adjectivávam banalmente. Talentos diffusos, solemnes, precisando d'um campo largo e aplainado para se espojarem, foram o alvo das acclamações d'um seculo, e hoje seriam—talvez!—dois citados escriptores illegiveis da Revista dos Dois Mundos! Juntava-se a elles a Pompadour, a espirituosa mulher que deu aos francezes mobilia, alegria e gozo. Esta sim, tinha razão de queixa dos jesuitas, que lhe compromettiam e refreavam as ambições.
A guerra contra elles foi tão iniqua e tão tola que até os seus inimigos—até Voltaire!—protestáram contra ella.
D'Alembert dizia:
«Foi a philosophia que, pela boca dos magistrados, lavrou a sentença contra os jesuitas. Diremos tambem, porque é preciso ser justo, que nenhuma ordem religiosa se póde glorificar de ter possuido um tão grande numero de homens celebres na sciencia e nas letras.» Etc. etc.
«A todos estes meios de augmentar a{36} sua consideração e credito juntavam um outro não menos seguro, que era a regularidade do seu comportamento e costumes. Embora se tenham publicado calumnias contra elles, devemos confessar que nenhuma Ordem deu menos motivos para isso.» Até aqui D'Alembert. Não citaremos mais por inutilidade. Em 1759 foram expulsos, de Portugal; em 1764 foi a sociedade supprimida em França e os bens confiscados, e em 1773 apparecia o breve Dominus ac Redemptor, que supprimia a Companhia de Jesus, considerando perigosa a sua doutrina.
Firmava-o o pulso fraco,—mas parricida!—de Clemente XIV que em pleno peito apunhalava os seus mais zelosos filhos.
Sejamos logicos: negar que os jesuitas prestávam innumeros serviços á Egreja é parvoice. Se prestavam serviços, porque é que a Egreja os supprimia? Quem não vê aqui o grande erro e o grande crime de Ganganelli, o cardeal que obteve a tiara com a expressa condição de supprimir a Ordem.[[6]]{37}