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Eis uma prova da honradez inquebrantavel do velho marquez: D. José quiz casar o principe do Brazil, seu neto, com a infanta D. Maria Francisca. Sebastião oppunha-se teimosamente e manhosamente a este enlace porque, dizia elle, uma alliança com a França seria muito proveitosa a Portugal: e propunha o casamento do principe com a filha de Luiz XVI. Como quasi toda a côrte e o rei eram contrarios á idéa do marquez, mandáram-se vir de Roma os breves da dispensa para se effectuar a primeira alliança projectada. Os papeis chegáram e ficáram em poder de Sebastião José. O rei adoeceu da paralysia mortal e ateimou para que se abreviasse o contrato. Procuráram-se os papeis em casa de Pombal, que os sumiu.
Julgo que este ultimo facto foi o que denunciou abertamente a D. José o empalmador de documentos. Pois que passado tempo, quando o marquez ia a entrar na camara em que jazia o rei enfermo, este apontou-lhe a porta disparando sobre elle um olhar carregado e colerico.{38}
O pobre D. José com o horror religioso que os antigos cortezãos lhe influenciáram, possuiu-se de um justo remorso pelos crimes commettidos de connivencia com o asqueroso mostrengo que fizera seu primeiro ministro. Uma tardia bonacheirice, onde havia um pouco de energia, de odio, de piedade e de gratidão para com o companheiro repulsivo dos seus crimes, evitou que o rei punisse com severidade o aventureiro desprezivel—e já desprezado!
A côrte, sabedora da repulsão do rei pelo grande e ridiculo criminoso, começou a fazer a Sebastião toda a qualidade de desfeitas, sendo um dos maiores desfeiteadores o cardeal Cunha—um antigo amigo do marquez. Bom homem!
D. José—o gordo—morreu no palacio da Ajuda em 24 de fevereiro de 1777. A 4 de março de 1777, dia seguinte ao de um decreto da rainha D. Maria I que exilava o ex-ministro amavelmente para Pombal e lhe fazia mercê da commenda de S. Thiago e da Ordem de Christo, partiu o marquez para a villa do titulo. No largo do Convento de Belem foi apedrejada pelo povo a carruagem em que ia. D. Maria I resolvêra deixar em socego Sebastião de Carvalho.{39} Mas elle, que não comprehendeu isso, publicou a apologia dos seus actos n'um idiotissimo volume provocador em que se póde, como amostra, avaliar a mesquinhez do seu talento de politico e de escriptor.
D. Maria I, instigada com razão pelos escandalisados, mandou a Pombal os desembargadores José Luiz da França e Bruno Manoel Monteiro da Rocha interrogar o marquez. D'estes interrogatorios resultou um decreto em que se dizia que o marquez, arrependido de tudo, pedira perdão; pelo que havia por bem a rainha perdoar-lhe, attenta a avançada idade e grandes enfermidades, os castigos corporaes que elle merecia. O decreto tem data de 16 d'agosto de 1781. O marquez de Pombal, de joelhos, pedindo perdão! O velho tigre, desdentado para morder, lambia, encolhendo as garras—porque já não podia arranhar.
Abandonado n'um exilio nem sequer mitigado pelas considerações e pelos respeitos que não recebia, este velho—velho como a estupida maldade do seculo em que viveu—era o espantalho sinistro do seu passado terrorista. Espantalho que não espantava senão moralmente, pois que era o espectro vivo d'um monstro amortalhado{40} no sudario de infamias, parecia que o remorso amarráva á sua columna de fogo este cadaverico que durante o seu reinado de sangue e de lama não perdoára nunca—e fôra perdoado!
É provavel que algumas das suas victimas se compadecessem d'elle. Os jesuitas, as victimas do seu odio jacobino, quando entráram em Portugal, recolheram-lhe piedosamente os ossos espalhados pelo chão da capella nos despojos da invasão franceza.
Parece impossivel que algum historiador se não tenha lembrado de dizer que o marquez teria estremecido no tumulo. Qual estremeceu! A poeira ficou piedosamente collocada na urna e a que se misturou com o lixo do chão foi varrida para a rua. Não houve estremecimentos.