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Não intentámos biographar o marquez de Pombal, mas sómente resumir os seus actos de governo e de crueldade. O homem para ahi fica exposto n'este pelourinho de justiça e de indignação. Quando o marquez{41} de Pombal morreu, o medico achou-lhe duas pedras no coração. Devia de ter mais quem mandou cortar a mão direita e arrastar á cauda de quatro cavallos um pobre pyrotechnico genovez sob pretexto que attentára contra os seus dias![[7]] Devia de ter mais o contradictorio mostrengo que inventou as minuciosidades do cadafalso de Belem, a impiedade de Malagrida, a conspiração dos jesuitas, e o crime de lesa-magestade na revolta do Porto. Escriptores metaphoricos comparam o coração do velho a uma caverna, a um antro. Aquillo era, indulgentemente fallando, uma latrina para onde escorriam as fezes da sua alma sempre abundante.
FIM.
[[1]] Vide o magnifico livro de Camillo Castello Branco Perfil do Marquez de Pombal. Porto, 1882.
[[2]] Uma das primeiras leis providenciaes do «grande reformador» foi a que mandava reprimir severamente «os libertinos que escolhem sempre a noite para assignalar o deboche e que, querendo fazer duvidar da honra das mulheres que se casavam, punham-lhes nas casas dos maridos os emblemas de ignominia (cornos) que tornam suspeita a fidelidade conjugal.» O sublinhado é tirado d'um livro em francez l'Administration de Sebastien de Carvalho e Mello, etc., etc. Amsterdam, 1786, tomo II, pag. 13.
Talvez que os taes libertinos puzessem o emblema na porta do ministro, que, para se não tornar grotesco, abafou a crueldade.
[[3]] O marquez de Tavora e o duque d'Aveiro, segundo a sentença, deviam ter os braços e as pernas quebrados e serem queimados vivos. O rei modificou-lhes esta tremenda morte.
[[4]] 23 de fevereiro de 1757.
[[5]] Soldados, cabos e sargentos pediam esmola publicamente. Os guardas do ministro pediam esmola a quem ia visital-o.
[[6]] Vide os historiadores Saint-Priest, Schoell, Muller, Schlower, Ranke, Luiz Gomes, Pinheiro Chagas, etc., etc.