O marquez de Pombal viveu em Londres d'onde trouxe a crassa ignorancia da lingua ingleza e a ausencia completa,—de resto propria do seu esquerdismo de desastrado—do puritanismo britannico, o grande puritanismo que antecedeu os dandies George IV, Brummell e lord Pellehan. O marquez tinha o caracter e as attitudes de um jacobino digno do ridiculo da época ridiculissima da revolução em que chafurdeiáram um Saint-Just, um Robespierre e um Marat. Monstro de caracter como este ultimo o era de corpo, o ministro applaudido e consagrado pela historia tinha uma tão ingenua maldade que a sua attitude dominante consistia em carregar o sobr'olho para fingir a polvora da colera que lhe explosia na pedreira do coração.
Actos que lhe merecessem a immortalidade, não lhe conheço senão os que lhe dão a immorredoura recordação do homem mais barbaro e mais estupidamente bestial que existiu no regimen absoluto. O marquez de Pombal como estadista tem o mesmo merito que na litteratura teria o escriptor que herdasse os manuscriptos de um{9} fallecido, e, publicando-os em seu nome, fosse declarado um dos maiores talentos do seculo.
N'este escripto analysam-se alguns actos culminantes do reinado de Sebastião e o autor procura cingir-se o mais possivel aos manuscriptos da bibliotheca publica de Lisboa, aproveitando n'elles o que ha de racional.
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A conspiração de 3 de setembro de 1758 está envolvida em densas trevas. Todas as hypotheses que se têm formado, todas as divagações que se têm feito, só têm concorrido para perder os historiadores n'um labyrintho de conjecturas.
Assim, uns dizem que a conspiração foi inventada pelo marquez de Pombal; outros que os tiros não alvejavam o rei, mas um criado, Pedro Teixeira, que tratára insolentemente o duque d'Aveiro. Tudo póde ser; mas como não ha um documento que favoreça ou desfavoreça semelhantes hypotheses, nada póde considerar-se como certo. O que é incontestavel é que o rei foi ferido no braço: «gravemente» dizem alguns historiadores.{10} É provável que haja engano.
N'aquelle tempo a ferida teria mais importancia, visto o atrazo da cirurgia; no emtanto a gravidade da ferida é contestavel; porque, n'um braço, o cirurgião remediava o perigo da gangrena, cortando-o.
Ferido grave ou ligeiramente, o rei recolheu-se a casa do marquez d'Angeja onde lhe foram dados os primeiros curativos.
Não fazemos a narração minuciosa do attentado, porque ella vem repetida em quasi todas as Historias de Portugal. Na do snr. Pinheiro Chagas vem elle narrado com muita exactidão.
Na mente rancorosa do marquez de Pombal os conspiradores eram os Tavoras, o duque d'Aveiro e alguns criados. A innocencia da familia Tavora é hoje tida como certa. O duque d'Aveiro, posto a tratos, confessou que elles eram culpados; mas depois negou. O marquez de Pombal com a confissão havia de ter um jubilo feroz. Elle detestava os Tavoras, fidalgos honestos, vaidosos dos seus pergaminhos que o tratavam desprezivelmente por Sebastião José. O tribunal aceitou a confissão do duque; mas quando se retractou, não lh'o consentiram. Os desgraçados postos a tratos,{11} segundo confessa Michelet e como logicamente se comprehende, muitas vezes confessavam crimes de que estavam innocentes, só para se livrarem d'aquelle supplicio medonho.