O mesmo supplicio foi infligido ao conde d'Atouguia e aos criados. Antonio Alvares Ferreira, Braz José Romeiro e João Miguel.

Houve um pequeno intervallo.

Veio a cadeirinha com o velho marquez de Tavora. Apeiou-se serenamente, subiu os degraus do patibulo, ajoelhou, beijou a aspa em que o haviam de quebrar, e só quando os algozes lhe mostráram os corpos desfigurados da mulher, dos filhos e dos criados é que essa estoica e santa serenidade se acabou por um momento. Estenderam-n'o sobre o cavallete, amarráram-lhe{17} os pés e os pulsos, e quebráram-n'o em vida. Morreu heroicamente[[3]].

Seguiu-se-lhe o duque d'Aveiro, o medonho arrependido que denunciára a familia Tavora. Tinha as feições contorcidas, e, horrivelmente desfigurado, sujeitou-se á operação de lhe amarrarem os pés e os pulsos. Estendido na aspa o carrasco vibrou-lhe a pancada na barriga, e, emquanto o infeliz uivava uns gritos lancinantes, iam-lhe quebrando os braços e as pernas. Eram tantos os gritos e as contorsões, que o carrasco apiedado—talvez!—deu-lhe com a maça na cabeça.

O ultimo martyr era Manoel Alvares Ferreira, o criado, cujos tiros entraram pelo braço do rei. Morria queimado. Fizeram os preparativos para a fogueira diante do infeliz que, quasi desmaiado, assistia ás minudencias da tortura. Lançaram-lhe finalmente o fogo, ao passo que queimavam os cadaveres das outras victimas. O vento soprava as chammas e avermelhava o corpo em braza{18} do desgraçado que gritava, torcia, blasphemava, apesar das consolações dos dois frades.

Já as chammas o envolviam todo, já as mãos se tinham tornado carvão, e ainda o infeliz erguia os cotos, cruzando-os, como que pedindo misericordia. José Polycarpo d'Azevedo foi queimado em estatua porque se tinha evadido. Sobre este sujeito veja-se a historia curiosissima que vem no Perfil do Marquez de Pombal do snr. Camillo Castello Branco. O cadafalso, os cadaveres, tudo, reduzido a cinzas, foi deitado ao mar.

Os bens dos fidalgos foram todos confiscados e o marquez de Pombal roubou-lhes alguma prata, algumas baixellas e alguns livros. Ainda na ultima compra feita pela bibliotheca á casa Pombal vem uma Genealogia dos Tavoras que Carvalho apanhou quando os bens se confiscáram. A prata foi achada ha annos em vida do marquez, fallecido ha pouco, guardando-se d'isso muito segredo.

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Reflexões sobre estes supplicios:

O rei, convencido pelo marquez de Pombal{19} da culpabilidade dos infelizes, não os deixaria com vida. O atoucinhado D. José não era animal de coração, embora não tivesse o requinte de selvageria de Pombal. Mandaria fuzilar os fidalgos ou garrotal-os, e enforcar os do povo. E, façamos-lhe esta justiça, elle não faria morrer a velha marqueza. Condemnal-a-ia a prisão perpetua. O marquez, inabalavel na sua porca vingança, induzia o animo amedrontado do covardão a não empregar a minima indulgencia. E depois como elle punha e dispunha de tudo, a vontade do rei, quando se não tornava imperiosa e rude, era para elle cousa secundaria.