Entregues á vingança do ministro ninguem, no emtanto, tinha direito de esperar tanta barbaridade. O Sebastião José inventa para matar os Tavoras os mais medonhos tormentos de que não ha exemplo na historia; confisca-lhes os bens; arraza-lhes as casas; prohibe que qualquer pessoa, sob pena de confiscação de todos os bens, use do appellido de Tavora, e, passados nove annos sobre esta inesquecivel tragedia, casa o seu segundo filho José de Carvalho e Mello com D. Francisca de Tavora e Lorena, sobrinha e prima dos sentenciados de Belem{20} e filha de Nuno Gaspar de Tavora e Lorena!

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Quando se prenderam os suppostos conspiradores, foram encarcerados no forte da Junqueira os jesuitas João de Mattos, Jacintho da Costa, José d'Oliveira, João Alexandre, José Moreira, Pedro Homem, Timotheo d'Oliveira, Francisco Duarte e Gabriel Malagrida.

Diz o snr. Pinheiro Chagas na sua Historia de Portugal:

«O grande marquez tinha fraquezas, que mancham a sua vida, aliás toda consagrada ao bem do paiz.»

Não estão más fraquezas! Por estas e outras fraquezas pagaram os Tavoras, o Malagrida, o Pelle, os jesuitas, os encarcerados nas medonhas masmorras, os roubados, os despojados, e, finalmente, aquelles que este livre pensador, para acabar com elles mais summariamente, entregava ao Santo Officio!

Assim succedeu ao padre Gabriel Malagrida. Malagrida era um velho septagenario a quem o sublime histerismo christão fazia venerado de todos. Os devotos consideravam-n'o{21} santo e procuravam-n'o com insistencia; os dignos respeitavam-n'o. O marquez de Pombal, como não era nem devoto, nem digno, e como o odiava, prometteu perdel-o.

Todos os que se aproximavam de Malagrida, depois da sua vinda do Brazil, onde o irmão de Sebastião José lhe não tinha querido fazer umas concessões justas para a sua Ordem, notavam-lhe o exaltado mysticismo, aggravado por uma mania prophetica. Era como que o prologo d'uma loucura mansa.

Os jesuitas, que lhe comprehenderam a doença, evitavam que elle fosse ao paço. Preso nas regeladas prisões do forte da Junqueira, a sua mente de visionario começou por ver fórmas celestiaes, visões, apparições. Escreveu na prisão a Vida da gloriosa Sant'Anna, livro em que se revela o apogeu da loucura serena.

Que admira que Malagrida estivesse louco? A prisão, a velhice, os maus tratos, os antecedentes da sua vida agitadissima, cortada de trabalhos, os annos de missionario, tudo concorreu para tornar inevitavel esta loucura. O livro de Malagrida foi um pretexto para o marquez de Pombal o entregar{22} á Inquisição. O processo foi summario e toda a responsabilidade d'elle cabe ao repugnantissimo cynico que a maior parte dos historiadores consideram ainda como um illuminado. Todos proclamavam a innocencia do martyr immolado ao odio do ministro. A sentença é escripta n'aquelle estylo manhoso, vago, solemne, perfido, jesuitico, como se diz hoje, de que o marquez de Pombal foi o mestre e o inspirador.