Quando ElRey D. Fernando fez a guerra a Castella serviraõ a ElRey D. Henrique o Nobre muitos Soldados Franceses, que vinhaõ armados de celadas, a que elles chamavaõ Barbudas; e traziaõ lanças com pendoens, que chamavaõ Graves; e traziaõ consigo Pagens para as celadas, a que chamavaõ Pilares; e querendo ElRey D. Fernando deixar memoria desta sua empreza, poz estes nomes, e insignias nas moedas, que mandou lavrar de novo[213]
A Barbuda era moeda do tamanho de quatro vintens, ainda que mais delgada; de huma parte tem huma celada com huma Coroa em cima, e o peito de malha, e à roda este letreiro: Si Dominus mihi adjutor, non timebo; e da outra parte huma Cruz das da Ordem de Christo, que toma todo o vaõ; nos quatro cantos da Cruz quatro Castellos, e no meyo da Cruz hum escudinho com as Quinas, e a letra: Fernandus Rex Portugaliæ; como se vè em algumas destas moedas, que tenho em meu poder.
Era a Barbuda moeda de prata muito ligada de ley de tres Dinheiros, e ElRey lhe poz preço de 20. soldos, que eraõ huma livra de 36. reis dos nossos.
Dos Graves 120. faziaõ hum marco, e valiaõ 15. soldos, que vem a ser 21. real dos nossos, e tinhaõ por divisa huma lança sobre os cunhos. Os Pilares eraõ tambem de prata de ley de dous Dinheiros, e valiaõ cinco soldos, que saõ da nossa moeda 13 reis, e dous seitijs.
Fez ElRey D. Fernando outra moeda, que chamou Fortes, que valiaõ 20. soldos, que saõ 29. reis, e dous seitijs, e meyos Fortes, que valiaõ 14. reis, e meyo, e hum seitil: assim mesmo mandou bater outros Torneses, a que chamaraõ Petites, palavra Francesa, que significa pequeno; donde se vè, que de França tomaraõ o nome, como tudo consta do cap. 56. da Chronica do mesmo Rey. E assim lavrou outras moedas antigas, das quaes se conservaraõ algumas, que eu tenho jà referidas com valores sobidos; e queixando-se os povos do grande preço, que estas moedas tinhaõ, e do pouco que pesavaõ, lhe abateo a valia a mais accommodados preços, como se diz no cap. 57. da mesma Chronica, convem a saber, que os Graves de 15. soldos dos Dinheiros Alfonsis, naõ valessem mais de 7. e a Barbuda de 20. soldos valesse 14. e os Pilares de 5. valessem tres, e meyo, e os Reaes de prata de 10. soldos valessem 8. E porque ainda estes preços eraõ grandes, tornou ElRey a fazer outra baixa, e mandou que a Barbuda, que jà estava em 14. soldos, valesse só dous, e 4. Dinheiros, que vem a ser quatro reis dos nossos, e o Grave 14. Dinheiros, que saõ dous, e dous seitijs; e o Pilarte 7. que he hum real, e hum seitil, e os Fortes 10. soldos, que saõ 16. reis, e 4. seitijs, e os Dinheiros, que de novo lavrara, que valessem como Mealhas.
§. XXVII
Das moedas delRey D. Joaõ o I.
ElRey D. Joaõ I. sendo Defensor do Reyno, como se vè no cap. 49. e 50, da I. p. de sua Chronica, mandou lavrar Reaes de prata de ley de 9. Dinheiros, que 72. delles faziaõ hum marco; e depois mandou lavrar outros de ley de 6. Dinheiros, e depois outros de 5. ficando sempre na mesma valia, e ganhando o mais. E com tudo isso o povo, pelo amor, que tinha a ElRey respeitou tanto esta moeda, ainda que cheya de tanta liga, que diz o Chronista, que muitos traziaõ depois estes Reaes de prata ao pescoço, como cousa santa, affirmando que lhe valia contra as enfirmidades.
Depois mandou o mesmo Rey, sendo ainda Defensor, lavrar Reaes de ley de hum Dinheiro, que valia cada hum dez soldos, e depois destes mandou fazer outros Reaes de tres livras, e meya, e de dez Dinheiros, e meyo, e o mesmo se vè do cap. 5. da 2. p. de sua Chronica.