Quando depois ElRey quiz tomar Ceita, mandou lavrar os primeiros Reaes brancos, que cada hum delles valia dez Reaes de tres livras, e meya, e eraõ de ley de dez Dinheiros, e 62. faziaõ hum marco.

Depois que veyo de tomar Ceita, dizem alguns mandou lavrar os seitijs, a quem deu este nome, em memoria do nome de Ceita, que entaõ conquistàra, ainda que outros dizem, que por valerem a sexta parte do Real, se chamaraõ seitijs, e corruptamente seitijs.

§. XXVIII.

Moedas delRey D. Duarte.

Depois que as Livras chegaraõ a grande diminuiçaõ, como adiante veremos, mandou ElRey D. Duarte lavrar outra moeda mais grossa, que chegaraõ Reaes brancos; os quaes eraõ de cobre com liga doutro metal, que os fazia mais brancos, do que os nossos Reaes de cobre, tal, e por isso se chamaraõ brancos, como se collige da Ord.[214] §. 16. Mandou ElRey D. Duarte, que cada Real branco destes valessem hum Soldo dos antigos, e assim cada hum delles valia 35. Livrinhas, e 20. Reaes brancos faziaõ huma Livra antiga das 700. a este respeito valia cada Real destes da nossa moeda dez seitijs, e quatro quintos de seitil pois 20. delles valiaõ 36. que he huma Livra das mayores.

Quando o mesmo Rey mandou bater estes Reaes brancos, parece que mandou juntamente bater outra moeda, a que chamou Pretos; dez dos quaes valiaõ hum Real branco; porque jà que se mudavaõ os soldos em Reaes brancos, pareceo conveniente, que se mudassem os Dinheiros em Preto; e este nome de Preto, parece que foy posto por diferença dos Brancos, e deviaõ tambem ser mais pretos, porque naõ teriaõ a liga do metal, ou de estanho, como tinhaõ os brancos. A valia, que estes primeiros Pretos tinhaõ, confórme à nossa Moeda, he a mesma de hum Seitil, e quatro cincoentavos de Seitil. Porque a mesma Ordenaçaõ diz, que hum Real destes brancos valia dez Seitis, e quatro quintos de Seitil; e como dez Pretos valiaõ hum Real branco, bem se infere, que hum Preto destes primeiros tinha hum Seitil; e o que lhe cabia dos quatro quintos do Seitil, que saõ quatro cincoentavos de Seitil. Tambem este Rey mandou lavrar escudos de ouro baixo.

§. XXIX.

Das Moedas delRey D.Afonso V.

Na Chronica delRey D, Afonso V. cap. 138. se diz, que em tempo delRey Duarte se lavraraõ escudos de ouro baixo, que nos Reynos estranhos se tomavaõ com muita difficuldade. E ElRey D. Afonso quando aceitou a Cruzada, para ir à Terra Santa, mandou lavrar de ouro sobido de toda a perfeiçaõ a Moeda dos Cruzados, a qual mandou sobir em peso, e naõ em preço dous graõs sobre todos os Ducados da Christandade, para assim poderem correr em todas as partes onde elle fosse. Destes cruzados ha ainda hoje muitos, e saõ buscados para dourar com elles pela sua muita fineza; e alguns, que me vieraõ à maõ, tem de huma parte huma Cruz, como a de S. Jorge com letras, que dizem: Adjutorium nostrum in nomine Domini; e da outra o escudo Real coroado, metido ainda na Cruz de Aviz com estas letras: Cruzatus Alfonsi Quinti R. O nome de Cruzado parece lhe deu por ser feito para a empreza da Cruzada, que aceitàra.

Hum Real tenho deste Rey com a figura de sua empreza, que era hum rodizio de hum moinho correndo com o impeto da agoa, a qual empreza usou em muitas partes, e principalmente no Mosteiro de S. Francisco de Varatojo junto a Torres Vedras, onde se elle retirou, por ser sitio muy aprazivel com a vista do mar, e muita caça da Coutada de Cintra, aonde esta empreza se ve pintada em muitos lugares da Igreja, e das officinas da casa; as letras da empreza dizem o que estava na mesma figura: He rodizio; porque se prezava este Principe de taõ comedido, que queria ser advertido dos erros para se emendar delles.