[216] Chron. de D. Joaõ 2. c. 56.
[217] Todas as Computaçoens que neste Tratado se fazem das moedas antigas com as que agora correm, se entendem a respeito da valia do marco de prata de 2U600. e do ouro 60U. que tinhaõ quando este Tratado se compoz antes da felice acclamaçaõ de Sua Magestade.
[218] Chron. delRey D. P.c. 11.
DISCURSO V
SOBRE AS UNIVERSIDADES de Espanha.
§. I.
Refere-se na Sagrada Escriptura,[219] que era proverbio em Palestina. Qui interrogant, interrogent in Abellà, com que se dava a entender, que quem quisesse ter verdadeira sciencia, e conhecimento das cousas, a fosse aprender a Abellà, porque esta era a Cidade daquella Provincia, onde havia escholas publicas de todas as Artes. O mesmo podemos dizer das nossas Universidades de Espanha; pois a ellas reconhecem todas as sciencias grande parte de suas perfeitas noticias, e nestas Academias se exercitaõ os engenhos Espanhoes de tal maneira, que naõ fizeraõ no mundo menos famosos pelas letras, que pelas armas. Alguns Authores procuraraõ escrever destas Universidades particulares Tratados, entre os quaes foraõ mais largos o Licenciado Afonso Garcia Mata-Moros, cuja obra anda no segundo tomo da Hispania Illustrata, e o Padre Andre Escoto no principio da Bibliotbeca Hispana, Estevaõ de Garibai no seu Compendio Historico lib. 16. cap. 10. e o Mestre Eugenio de Robles na vida do Arcebispo Cardeal D. Francisco Ximenes cap. 11. Porém occupados estes Authores com referir alguns Varoens doutos, que nas Universidades floreceraõ; dellas quasi naõ dizem mais, que os nomes, e ainda nestes faltaõ. Pelo que em graça dos estudiosos das boas letras apontarey neste Cathalogo as Universidades, que hà em cada Provincia de Espanha; quem foraõ os Fundadores, quãdo começarão, que Faculdades nellas se ensinaõ, e os Authores, que de cada huma mais particularmente escreveraõ.
§. II.
Principio das sciencias na Lusitania.
Elysa Neto de Noè, que he o mesmo Luso (porque o Ypsilon pronunciavaõ os Gregos por V.) foy o primeiro que povoou Espanha[220] dando principio à fundaçaõ de Lisboa, que delle tomou o nome Elysea, e os seus campos: Elyseos; e a Provincia Lysitania, & Lusitania como o provaõ Joaõ Goropio. Chamaraõ-se depois estes habitadores de Lisboa Turdolos, e multiplicando-se pelo tempo adiante, povoaraõ toda a terra de Andaluzia, onde retiveraõ o mesmo nome de Turdolos, e depois de Turdetanos; quasi Turdoletanos, ou Bolitanos, como os chama Apiano Alexandrino, ficando sempre aos de Lisboa o nome de Turdolos Veteres, ou antigos, por delles procederem os de mais. Por onde, confórme aos Antigos Geographos, naõ sómente se chamou Lusitania, e pertencia a esta Provincia toda a terra, que estava entre Douro, e Guadiana; mas do Oceano Setentrional, até o Mediterraneo de Valença: e por isso chama Estrabo[221] aos Lusitanos: Gens amplissima, suas palavras saõ: Tagi verò regio ad Aquilonem spectans Lusitania est, inter Hispanos gens amplissima, & annis plurimis Romonorum armis oppugnata, hujus regionis latus Australe Tagus cingit; ab Occasu verò, & Septentrione Occeanus; ab Aurora Carpetani. Da outra parte da Turdetania o confesa o mesmo Plinio,[222] affirmando que os Celticos de Espanha eraõ Colonias dos Celtiberos da Lusitania, como se vé destas palavras: Quæ autem regio à Beti ad fluvium Anam tendit, extra prædicta, Beturia appellatur, in duas divisa partes, totidemque gentes, Celticos, qui Lusitaniam attingunt Hispalensis Conventus, Turdulos, qui Lusitaniam, & Tarraconensem accolunt, jura Cordubam petunt. Celticos à Celtiberis ex Lusitania advenisse, manifestum est, sacris, linguis, oppidorum vocabulis. Quasi dizendo: A regiaõ, que se estende des de Betis ao Rio Guadiana, se chama Beturia, dividida em duas partes, e em outras tantas gentes, Celticos com a Lusitania do termo de Sevilha, e os Turdolos, que habitaõ a Lusitania, e a Tarraconense, e pedem sua justiça em Cordova. Cousa certa he, terem vindo os Celticos dos Celtiberos da Lusitania; prova-se, pela religiaõ, pela lingua, e pelos vocabulos dos povos. Isto mesmo confessa o doutissimo Rodrigo Cato[223] nas Antiguidades do Principado de Sevilha, dizendo: Beturia por ventura, tomò el nombre del rio Betis, llamose assi mismo Vetonia, y con nombre mas general Lusitania, en ella fue ilustrissima la ciudad de Merida, que fue convento juridico, y tuvo jurdicion, y finalmente fue cabeça, de la Lusitania. E Ortelio no seu Thesouro fallando de Olitingi, diz que estava na Lusitania entre as fozes de Gualdalquibir, e Guadiana: Olitingi Hispaniæ oppidum Pomponio in Lusitania intra Betis ostia, & Anæ fluminum videtur. Destas authoridades se mostra claro, que os Lusitanos povoaraõ tambem toda a Turdetania; porèm que a Vetonia, como mais vizinha, reteve mais o nome de Lusitania; e assim na Vetonia ficou sendo cabeça da Lusitania Merida, e dentro da mesma Provincia Cordova, Italica, Hispalis, ou Sevilha. Os Principes que governaõ pòdem estender, e diminuir os limites das Provincias para mòr commodidade; mas nem por isso deixa de ser a gente a que era dantes.