Turdetanos, diz Estrabo, como logo vetemos, que em seu tempo tinhaõ leys escritas em verso de seis mil annos; donde se vè, que os Lusitanos foraõ os primeiros professores das letras, que houve em Espanha, e taõ antigos no exercicio dellas, que Santo Agostinho na Cidade de Deos[224] os poem entre os primeiros, que ensinaraõ no mundo, como refere Luiz Vives nos seus Commentarios. Estes Turdetanos foraõ sempre continuando com a doutrina, e crescendo nas sciencias de maneira, que havia entre elles Universidades, e grandes volumes de antiguidades. Pelo que foraõ estimados pelos mais polidos povos de Espanha; como diz o mesmo Estrabo neste lugar: Hi inter Hispaniæ populos (diz elle) sapientia putantur excellere, & literarum studijs utuntur, & memorandæ vetustatis volumina habent poemata, leges quoque versibus conscriptas è sex annorum millibus, ut aiunt. Estes annos se haõ de entender de tres meses, segundo o antigo computo dos Espanhoes, que referem[225] varios Authores; e assim vem a fazer estes seis mil annos, os que havia depois da pouoaçaõ de Espanha, atè o tempo de Augusto, em que Estrabo escreveo.

Nestes estudos de Turdetania floreceo, e ensinou Asclypiades Merliano, que escreveo a Navegaçaõ, e naufragios de Olyses, de quem o mesmo Estrabo faz particular mençaõ.

Vendo pois Sertorio nos Lusitanos este antigo amor das Sciencias, quiz usar delle para utilidade sua como excellente Politico, e sendo chamado pelos Lusitanos por seu Capitaõ, e Governador, lhes mandou vir novos Mestres das Artes, que entaõ se professavaõ: instituhio huma Universidade em Guesca Cidade de Aragaõ, onde foraõ logo estudar os filhos dos principaes Lusitanos, que lhe ficaraõ servindo de refens para senaõ poderem levantar contra elle, como conta, e nota particularmente Plutarco na sua vida; mas sendo depois morto, e senhoreando-se de tudo Metello, levou estes Lusitanos, como por trofeos a Roma, por serem excellentes Poetas, segundo refere Tullio,[226] ainda que diz delles, que eraõ Pingue quiddam sonantibus: porque parece naõ pronunciavaõ bem a lingua latina; e com tudo pouco depois foy Mestre da mesma Roma Antonio Juliano, de quem faz mençaõ Aulo Gelio,[227] e Quintiliano. E pois o nome de Lusitania alcançava a Cordova, como os Authores allegados confessaõ, bem podemos chamar nossos Lucano, Seneca, e Silio Italico, que tanto floreceraõ em tempo dos Romanos.

Aqui nesta Provincia dos Turdolos antigos se devia conservar mais a Sciencia, pois a tinhão taõ antiga, principalmente em Beja, e Santarèm, onde pelos tribunaes das Chancellarias, que os Romanos nellas instituiraõ, se deviaõ praticar mais as letras, como parece bem pelos Authores, que destes Conventos juridicos da Lusitania sahiraõ, ainda em tempo dos Godos, como de Santarém João Abbade de Valclara, e Bispo de Girona; e de Beja Isidoro, Aprigio, Pacenses, e outros muitos, que no Cathalogo dos Authores Portugueses sahiraõ à luz com grandissima honra de suas Patrias, e de toda Lusitania.

Depois dos Godos sobrevieraõ as inundaçoens dos barbaros Arabes, que confundiraõ, e desfizeraõ as memorias de todas; mas tornando com grande trabalho a restaurar o perdido, os Reys de Oviedo, e Leão, foy a Provincia de Portugal huma das primeiras, que conseguio a liberdade. Deu-se Portugal por ElRey D. Afonso VI. (que ganhou Toledo) em dote ao Conde D. Henrique com sua filha Dona Tharesa; donde começou a clarissima successaõ dos nossos Reys Portugueses, de cuja virtude, e esforço tiveramos grandes memorias, se as continuas guerras dos primeiros D. Afonso, e D. Sancho na conquista do Reyno naõ tirassem o lugar à curiosidade, e dos outros dous, suas particulares discordias os naõ tiveraõ inquietos quasi todo o tempo, que reynaraõ, e por juntamente se prezarem mais naquelle tempo as armas, que as sciencias, temos delles taõ poucas memorias.

Porèm vindo o Infante D. Afonso Conde de Bolonha de França para governar este Reyno de Portugal em lugar de seu irmão, trouxe consigo alguma mais policîa, com a pratica, que em França tivera, que entaõ era o mais florente Reyno de toda Europa, e assim mandou crear os Infantes seus filhos D. Diniz, e D. Affonso na boa disciplina de todas as Artes, em que sahiraõ taõ excellentes, que nenhuns Principes do seu tempo se lhe avantajaraõ, principalmente ElRey D. Diniz, o qual teve grande conhecimento das boas letras, em que pelo tempo adiante fez varias obras, e ferveo nelle tanto o desejo de ver as sciencias em Portugal, que foy o primeiro, que fez Universidade neste Reyno, para se lerem nella todas as disciplinas, e artes liberaes, da qual, e das outras de Espanha o Catalogo he o seguinte.

§. III.

Catalogo das Universidades de Espanha.

Universidades de Portugal.

Universidade de Coimbra.