[230] Garib. sup. Robl. na vida do Arceb. Cisner. c. 1.
[231] Garib. sup.
[232] Robles na vida do Arceb. Cisner. c. 11.
DISCURSO VI.
SOBRE A PROPAGAÇAM DO Evangelho nas Provincias de Guiné.
§. I.
Das condiçoens, com que os Summos Pontifices deraõ aos Reys de Portugal o Senhorio de Guiné.
Sendo a prègaçaõ do Evangelho na Provincia de Guinè, a primeira que os Portugueses fizeraõ, e a mais vizinha a este Reyno, he muito para sentir ser esta a que tem dado menor fruito. Pelo que me pareceo necessario apontar as causas que impediraõ naõ se reduzir esta obra à sua perfeiçaõ, para que remediados os impedimentos produza a seara Evangelica nestas regioens os grandes augmentos, que se della pódem esperar; pois este he o intento, com que os Reys Portugueses emprenderaõ as suas Conquistas, e consentem que seus naturaes se desterrem da propria Patria, e occupem suas forças em habitar, e cultivar as alheyas.
O Senhorio, que os Reys de Portugal tem em Guinè, em que se incluem os Estados do Caboverde, Mina, S. Thomè, Angola, e parte de Congo, foy primeiramente concedido[233] aos Reys de Portugal por huma Bulla do Papa Martinho V. e depois por outras de Eugenio IV. Nicolao V. Xisto IV. e Leão X. nas quaes dizem os Summos Pontifices, que daõ o dominio daquelas terras a esta Coroa com condiçaõ, que os Reys della provejaõ de Sacerdotes, e Ministros do Evangelho, que bautizem, e ensinem nossa Santa Fè aos naturaes da terra, encarregando-lhes sobre isso suas consciencias, como se ve do theor de todas ellas, e por o mesmo respeito deraõ tambem aos Reys o Padroado de todas as Igrejas daquellas Provincias, e os dizimos dellas applicaraõ a Commenda Mestral da Ordem de Christo, para mais largamente acudirem os Reys a estas despezas; o que por ser nonotorio, e largo de referir, senaõ aponta com as mesmas palavras das Bullas Apostolicas.
Foraõ os Reys deste Reyno taõ pios, e zelosos da honra de Deos, que o principal intento, com que emprenderaõ estas conquistas, foy a propagaçaõ da Fè Catholica, e conversaõ daquella Gentilidade; e acrescentando-se de novo a este seu desejo a obrigaçaõ de que se encarregaraõ aos Summos Pontifices acima referidos, procuraraõ com muito cuidado desencarregar-se desta promessa; e por isso erigiraõ Igrejas Cathedraes na Ilha de Santiago, de Cabo-Verde, e na Ilha de S. Thomè, e na Cidade do Salvador de Congo, e em outras partes levantaraõ Igrejas, e poseraõ Vigarios para administrar os Sacramentos, e ensinar a Doutrina Christãa; e mandaraõ muitas vezes Religiosos àquellas partes, particularmente ao Reyno de Congo a fazer esta conversaõ, e para haver mayor copia de Ministros, fez ElRey D. Joaõ III. o Collegio da Companhia de Coimbra, e ElRey D. Henrique a Universidade de Evora, donde sahiraõ, e saem muitos Religiosos, e Varoens doutos nas Letras Sagradas, que empregaõ as vidas nesta gloriosa empresa. O primeiro lugar, que os Portugueses povoaraõ na Costa de Guinè, foy a Mina no anno de 1482. nelle se fez a primeira prégaçaõ, como o dà a entender Joaõ de Barros Dec. 1. l. 3. c. 2. e com haver mais de 150. annos ao tempo que se perdeo, naõ havia mais naturaes Christãos, que os de tres, ou quatro aldeas junto das fortalezas de S. Jorge, e Axem, sendo o districto deste governo taõ grande, que passa de 200. legoas.