A segunda prégaçaõ se fez em Congo,[234] e começou no anno de 1491. em que ElRey D. Joaõ II. mandou os Religiosos de S. Francisco, que bautizaraõ os Reys, e principaes Senhores daquelle Reyno: e por estes Religiosos morrerem em poucos annos, enviou depois ElRey D. Manoel à mesma empresa doze Padres dos Azues, a que neste Reyno chamaõ de S. João Evangelista. E ElRey D. Joaõ III. quatro Sacerdotes da Companhia, que huns, e outros acabaraõ em breves dias nesta empresa; a qual continuaraõ depois os Bispos, Conegos, e Clerigos, que o mesmo Rey D. Joaõ III. mandou, fazendo huma Igreja Cathedral na Cidade do Salvador. Porém de todas estas prégaçoens se tirou pouco fruito, ainda que foraõ feitas com grande zelo da salvaçaõ das almas, e concorrendo Deos nellas com obras maravilhosas, e sem haver resistencia nos naturaes da terra para receber o Bautismo; porque como a Provincia he muito grande; e os Ministros muito poucos, a mayor parte dos naturaes do Reyno naõ tem mais que o nome de Christãos, e os mais delles nunca viraõ Sacerdote; e tirando o Bautismo, e os nomes, que dos Santos tomaraõ, nos ritos, nos costumes, e na doutrina, saõ como de antes, quando eraõ Pagaõs. E assim nascem sem haver Sacerdote, que ensine os filhos, nem quem encaminhe os pays, nem quem leve por diante a obra de Deos naquella terra. De modo que sendo esta huma das grandes Christandades de que se podèra colher copioso fruito, està toda bravîa, por falta de quem a cultive, sem valer a seus Principes pedirem por tantas vezes ao Papa, e a Sua Magestade o remedio deste mal.

A Ilha de S. Thomè se povoou no anno de 1493.[235] que hà 159. annos; e em todo este tempo se doutrinaraõ sómente os Negros Cativos dos moradores da Ilha; e na terra Firme, só em Oere, porto onde residem Portugueses, hà alguns Christãos da terra.

Em Angolla des do anno de 1575. em que começou a conquista, atégora tudo foraõ guerras,[236] e da conversaõ dos naturaes se tratou pouco, ainda que tem em Loanda hum Collegio da Companhia, e outro Convento dos Padres Terceiros; porque o Evangelho de Christo he de paz, e naõ se ha de prègar com as armas nas mãos. E assim tirando os Negros de Loanda, e Massangano, naõ hà na terra outros Christaõs, senaõ os escravos, que saem daquelle porto de resgate para Europa, e Novo mundo; aos quaes bautizaõ, sem os cathequizarem, de maneira, que morrem nas mesmas embarcaçoens como brutos. Os outros moradores daquella grande Provincia, assim estaõ como quando nella entramos, antes escandalizados de nossas armas, que edificados da nossa doutrina.

O Cabo Verde, e suas Ilhas se descobriraõ no anno de 1440.[237] que hà mais de 200. annos; e a conversaõ, que se fez em todo este tempo, foy sómente nos escravos das Ilhas de Santiago, e do Fogo, onde estaõ as nossas povoaçoens, e na terra firme nos portos do Rio de S. Domingos, Guinalla, Biguba, Rio das Pedras, Bissao, Cacheu, e Joala, em que os nossos Portugueses residem. Fazem do mesmo modo bautizar os Negros, que compraõ, ou de que se servem, e nunca se prégou o Evangelho geralmente a nenhuma daquellas Provincias, até que no anno de 1605. por ordem do Concelho de Portugal se mandaraõ àquellas partes alguns Religiosos da Companhia, de que foy por Superior o Padre Balthesar Barreira Varaõ Apostolico, que nellas fez grande fruito, convertendo alguns Reys da Serra Leoa, e doutros districtos com muitos dos seus principaes; porém morrendo-lhe logo os seus companheiros, e elle pouco depois, ficaraõ outra vez os novamente convertidos desamparados de todo o socorro espiritual, para continuarem no conhecimento de Deos, e aproveitamento de suas almas.

§. II.

Das causas porque em tantos annos se tem feito taõ pouco fruito na conversaõ dos povos de Guinè.

Do que està dito se tem visto bastantemente o zelo, com que continuaraõ os Reys deste Reyno na conversaõ dos povos de Guiné, e o pouco fruito, que deste trabalho se tem colhido; as razoens, que para isso hà, saõ tres, a primeira nasce dos Ministros Ecclesiasticos, a segunda dos Portugueses, que trataõ naquellas partes, e a terceira da malignidade dos clymas daquella terra.

Os Ecclesiasticos, que alli vaõ ter, ou saõ Bispos, ou Religiosos, ou Clerigos: dos Bispos, ainda que houve alguns zelosos do bem de suas ovelhas; com tudo os mais delles as desampararaõ, vindo-se dos seus Bispados pouco tempo depois de là chegarem: de maneira que os mais delles vieraõ, e morreraõ neste Reyno, e naõ nas suas Igrejas; e ainda houve alguns que depois de as aceitarem, foy necessario usar com elles do rigor de justiça, para os fazerem embarcar para hirem residir nellas (que com taõ pouco animo de residir se aceitaõ às vezes estas Prelazias) a causa disto he por a terra pela mayor parte ser muito doentia, habitada de Negros barbaros, e sem policia alguma, de modo que naõ querem viver nella, senaõ aquelles, que pretendem tirar disso, ou grande interesse para a alma, ou para o corpo. Os Religiosos, que foraõ àquellas partes, eraõ poucos, e como naõ tiveraõ successores (porque as suas Religioens naõ aceitaraõ a empreza) acabaraõ em breve tempo, depois de gastarem a mòr parte delle em aprender a lingua dos naturaes: e assim hà muitos annos, que tirando-os das duas casas de Loanda, senaõ vem naquellas terras Religiosos, senaõ he a caso, e mais a buscar remedio temporal para seu bem proprio, que naõ o espiritual da gente della. Por tanto os Ecclesiasticos, que mais continuaõ nestas Provincias, saõ Clerigos; destes recebem os naturaes pouca doutrina, porque muitos delles saõ degradados deste Reyno; ou quando naõ, saõ os que naõ pòdem ter cà outro remedio de vida. De modo que sendo estes os que lhes haõ de dar exemplo, e doutrina, saõ impedimento para a salvaçaõ dos naturaes; porque alguns delles com seus costumes escandalizaõ aquelles povos, que com sua virtude, e doutrina houveraõ edificar, e converter. E assim, diz destes o Padre Balthesar Barreira,[238] que só se occupaõ em comprar, e vender, e que nunca dizem Missa, nem fazem officio algum de Sacerdote, tendo o intento principal em se tornarem logo para o Reyno, como se vém ricos, ou como algum remedio para o fazerem.

A segunda causa da conversaõ naõ ir avante he o mào exemplo, que de ordinario daõ os nossos Portugueses[239] naquellas partes; porque ainda que nellas vivem alguns bons Christãos, e zelosos do serviço de Deos, com tudo os mais dos que nelles moraõ, saõ degradados do Reyno por delitos graves; e os que andaõ no cõmercio, ou saõ tratantes, ou soldados, gente pela mayor parte cativa do interesse, a quem respeitaõ mais que a tudo. E assim muitas vezes estes saõ os que sem temor de Deos fazem naquellas partes grandes enganos, roubos, e extorsoens, por cativarem os naturaes contra justiça, e satisfazerem a sua cobiça. Pelo que naõ he muito que seja este roim exemplo dos Christaõs impedimento para se os naturaes converterem. Assim procedem muitas vezes os nossos misturados entre aquelles Gentios, passando muitos annos sem Missa, sem Sacramentos, sem ouvir a palavra de Deos, e pòde ser que sem se lembrar delle.

A terceira causa he a malignidade do clyma de muitas daquellas Provincias, que por serem de ares pestilenciaes, em breves dias consome, e mata a mais da gente, que deste Reyno là vay ter, e os que escapaõ, depois de os apalpar a terra, andaõ sempre com cores de homens mortos, atè que pouco a pouco os acaba de matar de todo aquelle Anjo percuciente, porque como diz o nosso Joaõ de Barros[240] poz alli Deos por seu occulto juizo com huma espada na maõ de mortaes febres, com que nos impede aquella habitaçaõ. Por tanto os mais dos Religiosos, e Bispos, que àquellas partes passaraõ, duraraõ muito pouco tempo, principalmente os que quiseraõ tomar mais trabalho abrazando-se com febres, ou exhalandose-lhes os espiritos pelos poros abertos com a grande inflamaçaõ do calor, de maneira que o Bispo de Cabo Verde D. Joaõ Parvi espirou estando chrismando, afrontado com o trabalho da muita gente; e D. Fr. Sebastiaõ da Assumpçaõ por fazer hum Pontifical, e prègar juntamente, acabou ao outro dia a vida.