Para se isto alcançar daquella gente, parece que naõ póde haver outro meyo mais poderoso, e facil, que o dos Seminarios, que dizemos; porque com elles se alcançaõ dous importantissimos effeitos. O primeiro he segurarmos em nossa amizade os Regulos confederados; porque tendo estes entre nòs seus filhos, e parentes, quasi como em refens, naõ poderaõ declararse em favor dos Olandeses em publico, nem em secreto. O segundo he a universal benevolencia, que adquirirémos com aquelles Principes, e povos de Guinè, os quaes vendo o grande beneficio, que se faz a seus filhos, e parentes em os mandar sua Magestade ensinar, e doutrinar à sua custa, honrando-os, e engrandecendo-os com a dignidade Sacerdotal, admittindo-os aos Beneficios, Cortesias, e Dignidades de suas Igrejas, forçosamente haõde ficar obrigados a taõ grande mercè, e unidos com nosco em paz, e amizade, e feitos inimigos de nossos contrarios, principalmente depois que os Seminaristas seus naturaes lhes começarem a prègar, e persuadir, que se apartem de sua communicaçaõ. Disto temos jà visto hum grande exemplo[243] em ElRey D. Filippe da Serra Leoa, o qual sem receber beneficio algum temporal da Coroa deste Reyno, mais que o espiritual do Bautismo, foy este bastante para lançar fóra de seus portos os Olandeses, e prender os que depois a elles chegaraõ. Pelo que mais se pode esperar que façaõ os outros daqui por diante, vendose obrigados a Sua Magestade com lhes mandar ensinar, e honrar seus filhos, e naturaes.
He este meyo de taõ grande importancia, que naõ póde haver outro mayor, nem mais certo para as Naçoens do Norte deixarem aquelle cõmercio; porque nenhuma cousa cria taõ grande odio entre as gentes, como a diferença das Religioens. E assim ainda em razaõ de estado este he o meyo mais principal, com que os Reys fazem mais obedientes os vassallos, e inimigos de seus vizinhos, como conta a Escritura Sagrada de Jeroboaõ, que fez idolatrar a gente de Samaria, para ficar firme no Reyno novo. Pelo que se estes, e outros muitos alcançaraõ este seu intento prégando falsa doutrina; com muita mais razaõ devemos pretender a conversaõ desta Gentilidade; pois com ella àlem do bem de suas almas se confirmarà em perpetua obediencia o senhorio, que esta Coroa tem naquellas partes, fazendo aborrecer, e odiar nellas os Herejes, de maneira, que naõ sejaõ nellas mais admitidos.
Seguirseha tambem destes Seminarios a paz de Angolla, deixandose o meyo das armas, que ha tantos annos a andaõ destruindo, das quaes senaõ tem colhido fruito algum; porque o pensamento de nos senhorearmos das Minas, a experiencia o tem mostrado impossivel, naõ só porque as naõ hà da fineza, e abundancia, que se requerem para serem de proveito; mas pela grande dificuldade, que haveria em se conservar o dominio dellas tantas leguas pelo sertaõ dentro, o que naõ poderia ser sem muitos presidios. Onde os inimigos, e doenças eraõ bastantes, para consumir toda a gente de Portugal. E assim destes metaes nunca poderémos ter mais, que aquelles que os Negros nos trouxerem a resgatar, movidos pelo interesse do ganho; e as guerras, que por este respeito se fazem, só servem de gastarem a fazenda de Sua Magestade ha muitos annos, por custar muito naquellas partes a sustentaçaõ dos soldados, e naõ para algum bom effeito. Porque ainda que sempre tivemos vitoria, naõ se contentaõ muitos Capitaens com este vencimento por ganharem mais com Sua Magestade nestas guerras, do que as mesmas rendas de Sua Magestade poderiaõ ganhar com o commercio da paz. E sendo assim que a conquista de Angolla naõ se intentou para povoarmos aquella Provincia (pois neste Reyno nos sobejaõ terras muito melhores, que por falta de gente se deixaõ de cultivar) senaõ por respeito da conversaõ dos naturaes da terra, e do comercio: não sey que espirito de guerra tem entrado naquelle Estado, que o tem destruido quasi de todo. E feito cessar huma, e outra cousa, por ser a guerra a destruidora dos commercios, e da promulgaçaõ do Evangelho, que sendo como temos dito, de paz, naõ se pòde prègar com as armas na maõ. E por isso dizem os Santos, que ordenou Nosso Senhor houvesse huma paz universal no Mundo, quando quiz que se convertesse, e prégasse nella sua Santa Ley. E o que em Angolla està feito de conversaõ, e commercio, se deve aos que a governaraõ em paz, e naõ com guerra. Por tanto se devem mandar extinguir estas infaustas guerras, e trazer aquelles Povos à nossa amizade com beneficios, e boas obras, ensinando-lhes os filhos, e honrando-lhos por meyo dos Seminarios; e por esta via se alcançarà a benevolencia daquellas gentes, e naõ com as mortes de seus parentes, e assolaçoens de seus Povos, que cada hora recebem de nossas mãos, em lugar dos favores, e caricias, com que os haviamos de attrahir para se converterem, e estimarem nossa communicaçaõ.
Finalmente com esta obra dos Seminarios alcançarà Sua Magestade hum nome gloriosissimo de Pio, e Religioso Principe, porque vendo as outras Naçoens estes Seminarios, e o grande zelo da honra de Deos, com que Sua Magestade manda taõ longe, e a terras taõ barbaras doutrinar sogeitos para a prègaçaõ do Evangelho, e fazer politica huma das mayores partes do Mundo, naõ poderaõ deixar de lhe dar grandes louvores, edificando-se de taõ grande zelo da salvaçaõ das almas. E com isto se calaraõ de todo nossos inimigos,[244] que vendo nosso descuido, naõ deixaõ de nos calumniar, dizendo que naõ himos àquellas partes, por estender o Evangelho, senaõ por fazer nosso proveito. As quaes calumnias falsas, e outras semelhantes, de que andão seus livros cheyos, cessaraõ de todo, vendo com estes Seminarios, que a salvaçaõ das almas he o principal interesse, que Sua Magestade pretende destas Conquistas.
§. V.
Como se poderaõ fazer os Seminarios com pouco custo.
Do que temos atègora dito, consta que esta obra da conversaõ dos Ethyopes desta Costa, naõ se pòde fazer sem ajuda dos mesmos naturaes da terra doutrinados, e ensinados por nòs. Pelo que resta sómente vermos os meyos, com que isto se hade fazer: estes saõ notoriamente dous, ou vindo os sogeitos de Guinè aprender a Portugal, ou hindo os Prègadores de Portugal a Guinè a ensinallos.
Bem sey que de muito mòr proveito fora fazer estes Seminarios em Portugal, applicando-se a creaçaõ delles a alguns Religiosos; porque cà seria de mòr fruito a doutrina, e aprenderia juntamente a policîa, como aconteceo aos primeiros Sogeitos que de Congo vieraõ, que chegaraõ a ser depois Bispos. Mas se pelas occasioens presentes naõ pòde isto agora ter inteiro effeito, ao menos bem se poderiaõ repartir alguns a dous, a dous pelos Conventos de Religiosos com ordem de Sua Magestade, para que fossem doutrinados nas boas letras, e podessem depois hir fazer o mesmo officio com seus naturaes. O que meyo com muita facilidade se podia executar. Porém quando isto agora naõ possa ser, facilmente se poderaõ ordenar em Guinè; porque as fabricas, que se usaõ naquellas partes, saõ taõ pouco custosas, e do mesmo modo a sustentaçaõ dos sugeitos pela barateza dos mantimentos da terra, que ElRey D. Affonso de Congo fez huma cerca, em que tinha mil moços nobres com Mestres, que os ensinavaõ, e delles sahiraõ Mestres, que poseraõ escolas por todo o Reyno, e por este meyo se veyo converter todo elle, como se diz na Chronica delRey D. Manoel p. 4. c. 3. Pelo que tornando as rendas daquellas Provincias seu estado com huma moderada ordinaria, se poderiaõ sustentar os sogeitos, que parecessem convenientes.
Para se fazerem estes Seminarios, àlem do de Loanda em Cacheu, ou em Biguba ha a mayor commodidade, que pòde ser, naõ só para os Discipulos, mas para os Mestres, que naõ saõ naturaes da terra. Cacheu, diz o Padre Balthesar Barreira nas cartas do anno de 1607. e 1608. que he o mais composto, que se póde escolher; porque he porto frequentado de todos os navios de Europa, e Caboverde, pelo grande resgate, que aqui ha de escravos, os quaes antes de se embarcarem, se bautizaõ, e por isso he alli mais necessaria huma casa de Religiosos doutos. Confessa o Padre, que aqui fez mayor fruito, que em nenhuma outra parte de Guinè, com estar alli menos tempo. E com tudo era grande a magoa, e dor, que sentia de ver a perdiçaõ de tantas almas, que se poderaõ salvar, se deste Reyno lhes mandaraõ quem os doutrinasse; porque com o bom entendimento, que tem, se sojeitaõ tanto às razoens, que lhes daõ, que sem duvida se converteriaõ todos. E he esta Provincia taõ perto deste Reyno, que naõ dista de Portugal mais que 20. dias de navegaçaõ. E o que mais he de notar, que diz o Padre em muitos lugares, que os ares da Serra Leoa, e dos mais lugares daquella costa levaõ ventagem aos melhores de Portugal; e que se naõ morre naquella terra de doença, senaõ de velhice; porque naõ tem excesso nos frios, nem nas calmas pela frescura que sempre corre, e assim naõ he necessario no veraõ usar de remedios de aguar as casas, nem de avanos. E affirma o Padre, que tem esta terra por mais accommodada à vida humana, que todas as de Europa.
A facilidade da conversaõ he tanta, que diz o Padre Balthasar Barreira, que naõ ha Rey dos que vivem pela Costa, que naõ queira receber o Evangelho com toda a sua gente: exemplo seja, que os mais delles lhes deraõ os mesmos filhos, para que os levasse consigo, e os ensinasse, e assim entre outros trazia dous filhos delRey de Tora, e outros dous, da Serra Leoa.