O Cõmercio he taõ grande, que excede o que se tira de todas as outras partes, porque diz, que só os Olandeses tiraõ delle todos os annos dous mil arrateis de ouro. Na terra hà melhor pào de tinta, que o do Brasil, mais algodaõ, e mais fino, ambar, marfim, cera, malagueta, courama. As canas de assucar nascem naturalmente, grande abundancia de mantimentos, ferro, e outros metaes, muitas arvores de espinho, as uvas se daõ pelo campo, bananas, arroz, milho, castanha, a que chamaõ Cola, de que se leva para todo Guinè, e nascem em ouriços sem espinhos, palmeiras, toda a sorte de aves, e animaes, muitos, e bons pescados, pelo que naõ só havendo Prègadores, se ficaria ganhando hum numero quasi infinito de almas para a Igreja Catholica, mas hum muy rendoso comercio para este Reyno.

Para Sua Magestade mandar contribuhir das rendas de Guinè esta ordinaria, hà assaz de razoens: porque àlem de naõ ser muita a porçaõ, he esta obrigaçaõ imposta pelo Sagrado Concilio Tridentino àquelles dizimos, àlem de os Summos Pontifices concederem com esta condiçaõ à Coroa deste Reyno o Senhorio de Guinè; da qual só Angolla rendia quarenta contos. Pelo que naõ he muito, que para esta obra de tanta obrigaçaõ, e proveito espiritual, e temporal se acrescente esta Ordinaria às outras de Angolla, e Caboverde, a qual naõ servirà de despeza, senaõ de accrescentamento dellas; porque como dissemos, naõ se pòde fazer mayor guerra aos Herejes naquellas partes, que por meyo do Seminario. De maneira que continuandose elle, em poucos annos se colherà sem comparaçaõ muito mayor fruito temporal, do que pòde ser o gasto; mas ainda que se este naõ seguisse, assaz se alcança com a salvaçaõ de tantas almas: sendo cada qual de tanto preço, que só por huma dellas, viria Nosso Senhor de novo do Ceo à terra a se fazer homem, se isso fora necessario para sua salvaçaõ.

Este zelo da honra de Deos foy o que dilatou o Senhorio de Portugal posto num canto de Espanha atè os fins da terra, dando-lhe as riquezas de Africa, Asia, e America. Esta grandeza hirà sempre em crescimento, se se continuar o zelo da conversaõ das mesmas gentes. Para o qual ministerio Nosso Senhor escolheo por sua particular graça, e misericordia aos Portugueses, como o certificou ao nosso primeiro Rey D. Affonso Henriques. Este he o fundamento de nossas vitorias, esta he a causa de se sustentarem as Colonias de Portugal por todas as Costas da redondeza da terra; o que naõ pòde ser senaõ milagrosamente, porque naõ houve nunca Monarquia, que tanto se estendesse, nem Imperio algum, que tivesse poder para defender tantas mil legoas de Fronteira confinantes contra os mayores Principes do mundo. A esta divina obra deraõ principio os Portugueses, como outros novos Apostolos, por ella derramaraõ tantas vezes o sangue, e sacrificaraõ as vidas, como tem visto o mundo todo no grande numero de Martyres, assim Religiosos, como Seculares, que padeceraõ no Japaõ, China, Siaõ, India, Cafraria, e no Brasil.

Botero no livro intitulado: Del officio di Cardinali l. 2. fol. 138. estranha grandemente aos Portugueses o esquecimento que tem de prègarem na Ilha de S. Lourenço; tendo tanto zelo, que se empregaraõ na conversaõ espiritual da India, Malucas, Japaõ, e China, que lhe ficava muito mais longe. Pelo que com quanta mais razaõ se podéra queixar de faltarmos com esta doutrina aos povos de Guinè, se fora informado das commodidades, que para isso temos muito mayores, que naõ para a Ilha de S. Lourenço, suas palavras saõ: Non voglio pero lasciar de dire che io mi maraviglio grandemente, che i Portuguesi, che con lode, e con gloria loro immortale an aportato la luce del Evangelio a la India, a le Maluche, a la China, i al Giapone, & che no hanno incio risparmiato, ne speza, ne travaglio, ne periculo alcuno, lascino, in abandono, la Isola de San Lorenzo, posta quasi a media strada de le navigationi loro.

Finalmente se desejava[245] S. Francisco Xavier de hir prègar aos Doutores da Universidade de Pariz a obrigaçaõ, que tinhaõ de exercitar o talento na conversaõ dos povos da India, que por falta de semelhantes obreiros se hiaõ à perdiçaõ; com quanto mais razaõ pòdem temer esta conta aquelles, a cujo cargo estiver procurar a conversaõ de tantas almas, que por esta falta se perdem cada dia? E assim parece se deve mandar entender nesta materia com muita diligencia, e consideraçaõ; pois della resulta taõ grande serviço de Deos, e de Sua Magestade.

NOTAS DE RODAPÉ:

[233] P. Joaõ de Lucena na vida de S. Francisco Xavier l. 2. c. 10.

[234] Joaõ de Barr. Dec. 10. l. 3 c. 9. & 10.

[235] Chron. delRey D. João II. c. 178.

[236] Relaçoens de Botero p. 3. t. Angolla.