Por conclusaõ de tudo nos pòde servir de demonstraçaõ desta verdade o exemplo, que vemos nos Olandeses, os quaes com os Galeoens estaõ feitos Senhores do Cõmercio da India, porque as embarcaçoens ordinarias em que navegaõ, naõ passaõ de 500. Toneladas. E ainda que algumas vezes usaõ de outras mayores, e que chegaõ a 800. podem-no fazer sem tanto risco, como nòs, porque a sua carga naõ he de roupas, ou caixaria, senaõ de Drogas cosidas em fardos, e nenhuma fazenda vay fóra de seu lugar, porque a carregaçaõ corre pelos Ministros de sua bolsa, e naõ pela cobiça dos nossos Marinheiros, que costumaõ carregar as nossas Nàos à sua vontade. Pelo que naõ excedendo ordinarimente os Navios de suas Frotas de 450. Toneladas, hà mais de 50. annos, que fazem viagem, sem saberem quasí, que cousa he naufragios, nem perderem Galeaõ da Carreira, e todas as vezes que se encontraraõ com as nossas Nàos, ficaraõ superiores na peleja, como temos dito, assim por serem mais os seus Galeoens, que as nossas Nàos, como pela ventagem da ligeireza. Por estas razões lhes rende tanto o Cõmercio da India, que saõ hoje os mais poderosos mercadores de Europa; e sem algum Principe entrar em sua companhia, só com os ganhos do Cõmercio, que todos os annos lhes chega a salvamento nos Galeoens, saõ bastantes a sustentarem a guerra na India, e no Brasil contra Sua Magestade, com tão grandes Armadas, e numero de Soldados, que naõ ha Principe fóra de Espanha, que atègora pudesse fazer outro tanto.

Alèm destas causas bem sey, que hà outras muitas, para se as Nàos perderem: porèm a demasiada grandeza, e as querenas saõ os defeitos mais ordinarios, e mais faceis de remediar, e que tem occasionado mais naufragios, que todos os outros juntos. Pelo que totalmente convèm, assim, para conservarmos o Cõmercio, como para prevalecermos contra os Olandeses, que se deixem estas fataes Nàos de summa grandeza, e tornemos aos Galeoens, e Nàos pequenas, com que este Reyno alcançou o Senhorio da India, pois he axioma certissimo dos Filosofos, e Politicos, que as cousas permanecem, em quanto se conservaõ as causas, que as produsiraõ. E deste modo evitarà Sua Magestade ver cada anno perder as suas Nàos com tantos milhares de cruzados de cabedal, e tantos Vassallos seus, que tanto lhes custaraõ aos pòr na India, e tornar embarcar para Portugal. E os Officiaes, Marinheiros, e Passageiros das Nàos, escusaraõ de botar com seus mesmos braços ao mar aquellas riquezas, que adquiriraõ com taõ compridos trabalhos, e riscos, e o que he mais, perder as vidas, despedaçados nos penhascos das Costas bravas da Etiopia, ou escapando daqui, às maõs dos Cafres, e de cruelissimas fomes, dando sepultura a seus corpos nos ventres dos Tigres, e outras semelhantes féras dos ardentes desertos da Cafraria.

NOTAS DE RODAPÉ:

[246] Informaçaõ sobre a Companhia Oriental.

[247] Companhia Oriental fol. 180.

[248] Companhia Oriental fol. 109 n. 95.

[249] Regimento da casa da India fol. 217.

[250] Naufragio Santo Alberto fol. 15.

DISCURSO VIII.

Sobre a peregrinaçaõ.