Os desejos de peregrinar por diversas Provincias saõ quasi cõmuns a todos na primeira idade; por onde convem saber as occasioens, em que sómente esta resoluçaõ pòde ser util, e os grandes inconvenientes, que se seguem do contrario, para com esta demonstraçaõ se atalharem semelhantes intentos, que muitas vezes desordenaõ o curso mais aceitado das acçoens da vida. Opiniaõ recebida he entre os Filosofos naturaes, que as varias constellaçoens, e sitios das terras saõ a causa da differença dos engenhos, e inclinaçoens dos homens. Porque como cada regiaõ cria naturalmente particulares plantas, e fruitos, da mesma maneira produz em seus habitadores diversos temperamentos, dos quaes procede serem a certos costumes, artes, e sciencias inclinados. O mesmo affirmaõ Plataõ, e Aristoteles, e particularmente o Poeta Latino, quando appropriando só aos Romanos a Politica, diz:

Excudent alij spirantia mollius æra,
Credo equidem vivos ducent de marmore vultus,
Orabunt causas melius, cælique meatus
Describent radio, & surgentia sydera dicent;
Tu regere Imperio terras, Romane, memento,
Hæ tibi erunt artes, &c.

Por esta razaõ, vendo antigamente alguns Varoens de grande entendimento quam limitada era a noticia, que cada hum podia alcançar na patria, e que as sciencias, e artes floreciaõ em varias partes do Mundo, emprenderaõ grandes peregrinaçoens; e correndo muitas Provincias, tornavaõ à propria terra cheyos destas mercadorias, e verdadeiras riquezas.

Estes foraõ, como diz Plataõ, os celebrados trabalhos de Hercules, que sendo grande Filosofo, e querendo alcançar a perfeiçaõ de todas as sciencias, escolheo por companheira, antes a virtude mal vestida, que a lascivia enfeitada; e vencendo em si os effeitos animaes de leaõ, javali, e cervo, que se lhe oppunhaõ ao caminho, buscou a Prometheo no Caucaso, a quem dizem tomou a Aguia pela noticia, que elle lhe deu desta Constellaçaõ celeste. E passando a Africa, aprendeo de Athlante o curso dos Ceos, e Planetas, com o nascimento, e occaso das estrellas, figuradas dos Poetas naquellas maçaãs de ouro, que so podia colher Athlante; o qual por esta causa dizem, lhe poz os Ceos às costas. E assim foy elle o primeiro, de cuja boca sahio o conhecimento da Via Lactea, atè entaõ naõ alcançado dos Astrologos, e outras muitas cousas, que os Poetas nos contaõ, disfarçadas em suas doutas fabulas. Isto mesmo fizeraõ Solon, Licurgo, Democrito, e outros muitos. Pelo que nenhum homem era tido por grande entre os antigos, senaõ depois de largas peregrinaçoens. Por onde Homero preferio este titulo a todos os outros de Olysses, quando invocando Caliope, lhe diz:

Dic mihi Musa virum captæ post tempora Troiæ,
Qui mores hominum multorum vidit, & urbes. &c.

Porèm ninguem peregrinou com tanto fruito, nem mereceo mais gloria nesta materia, que Pythagoras, e Plataõ, os quaes tratando com os Sacerdotes do Egypto, e Chaldea, com os Magos da Persia, Gymnosophistas da Ethyopia, Bracmanes da India, e com os mais insignes Varoens de sua idade, nos deixam o conhecimento das sciencias taõ perfeito, que escusaraõ depois a seus discipulos Aristoteles, e Architas outro semelhante trabalho. Donde daquelle tempo por diante floreceraõ as sciencias em Grecia, e naquella parte de Italia, que tambem chamaraõ Magna Græcia com tanta ventagem das Provincias, em que nasceraõ, como ordinariamente fazem as plantas dispostas noutra terra; e como se vio nos pomos Persicos, oliveiras, cerejeiras, e platanos, que antes, e depois della vieraõ.

Com estes exemplos se mostra claramente, que só por razaõ de alcançar as sciencias, e artes necessarias ao commum, e particular, se deve sahir da patria, e que sendo o lugar, em que as letras se professem, perto, se escusa buscar o apartado, e longe; pois assim o fizeraõ os Gregos, e os Romanos, os quaes com o dominio do mundo trouxeraõ tambem à Cidade os melhores engenhos delles; de modo que em tempo de Trajano os mais aprendiaõ em Roma; e no de Theodosio ninguem jà hia a Athenas, como no lo dà a entender S. Hieronymo, e outros daquelle tempo. O mesmo se vio em França, depois de fundada a Universidade de Pariz, e em Espanha, quando se reformou pelos Reys Catholicos a de Salamanca, e em Portugal a de Coimbra por ElRey D. Joaõ III. Conhecidos saõ no mundo os illustres engenhos, que em todas estas Universidades floreceraõ, sem sahirem dellas a outras partes. Pelo que havendo na Provincia de cada hum escolas, onde com conhecido louvor se leaõ, e ensinem sciencias, naõ he necessario illas buscar com peregrinaçaõ a outras partes: Frustra enim fit per plura, quod potest fieri per pauciora; como diz o Axioma do Filosofo, que neste particular, como em todas as cousas moraes, tem seu lugar.

Com tudo algumas artes ha, que ainda, que o especulativo dellas se possa ensinar nas Escolas, he necessario totalmente para sua perfeiçaõ praticaremse com o exercicio; destas he huma a Arte Militar, a qual ainda, que se possa ler nos estudos por parte da Politica, naõ se pòde alcançar perfeitamente, sem primeiro se exercitar. Donde dizem Tulio, e Plutarco, que com razaõ se rio Annibal em Epheso da oraçaõ, que o Filosofo Phormiaõ lhe fez sobre o officio de Capitaõ, e doutrina da guerra, sem ter nunca hido a ella, como tambem elegantemente o refere o nosso Poeta Portuguez[251] a ElRey D. Sebastiaõ, dizendo.

De Phormiaõ Philosopho elegante
Vereis como Annibal escarnecia
Quando das artes bellicas diante
De elle com larga voz tratava, e lia.
A disciplina Militar prestante,
Naõ se aprende Senhor na phantasia,
Sonhando, imaginando, ou estudando,
Senaõ vendo, itratando, ou pelejando.

Por tanto os que ouverem de servir a Republica na Milicia, e quizerem alcançar nella a reputaçaõ, devem de a hir exercitar, e aprender nos Exercitos, seguindo os fóra da patria, quando nella os naõ ouver, ou embarcandose muitas vezes nas Galès do mar Mediterraneo, e nas Armadas do Oceano, e India Oriental, que saõ as escolas em que hoje florece esta pratica.