O mesmo diremos daquella parte da eloquencia, que trata da linguagem ordinaria, a que os Latinos chamaõ, Sermocinatio, e da Ethica, que pertence aos costumes proprios urbanos com que hum homem se faz perfeito Cortesaõ, os quaes se professaõ com perfeiçaõ na Corte do Principe sómente (donde o mesmo Cortesaõ tomou o nome) ou quando a Corte he totalmente diversa da lingua, e costumes do outro Reyno, na Metropoli da Provincia; porque aqui estaõ em seu ponto os estylos, e cortesias, com que os homens se devem tratar huns aos outros. Aqui nascem os trajos polidos, de que se deve usar na Cidade, Casa, e campo, e aqui somente se pratîca a pureza da lingoa natural. A perfeiçaõ da qual, como quer o Conde Balthasar Castilhioni, està no uso mais recebido, e praticado da Corte; pois nos outros povos fóra della vemos conservaremse outros vocabulos, e taes, que quando seus moradores vem à Metropoli, usaõ taõ necessariamente das palavras do tempo de Evandro (por dizer assim) como o outro em Macrobio as usava de proposito.[252]

Tambem he parte essencial da Politica a noticia da Provincia em que cada hum nasceo, e cuja administraçaõ lhe pòde em todo, ou em parte cahir em sorte, porque mal se pòde governar aquillo, que senaõ conhece. Pelo que importa grandemente ver, e andar todo o Reyno, ou a melhor parte delle, e saber de cada regiaõ, e lugar o sitio, poder, abundancia, commercio, e costumes, e tudo o mais necessario para poder depois usar de cada cousa em seu lugar. DelRey Francisco de França se conta;[253] que andando à caça lhe deraõ aviso, como o Emperador Carlos V. vinha marchando com hum poderoso Exercito contra elle; e que ouvindo, reparou hum pouco cuidando, e subitamente despachou recados para varias partes do Reyno; mandando trazer de humas Provincias gente, e de outras armas, de outras bastimentos, apontando os caminhos, rios, e portos, porque cada cousa havia de vir, como se tivera todo o Reyno presente a huma só vista; e assim dentro em meya hora, e sem descer do cavallo, em que estava, ordenou outro Exercito, com que resistio à potencia do Emperador, e conservou seu Reyno. O que mal podéra fazer sem grandes dificuldades, e muito espaço de tempo, se o naõ tivera andado, e passado todo, e notando as particularidades delle com grande consideraçaõ. A mesma noticia pois, he necessaria no conselheiro do Principe, ou em qualquer outro ministro superior da Republica. Estas peregrinaçoens, que temos referido, saõ sómente as que cada hum, segundo sua profissaõ, he obrigado a fazer; e com que poderà sahir varaõ perfeito nas letras, na corte, e nas armas. Porque sem outras mayores alcançaraõ nas letras este louvor, Aristoteles, e Demosthenes em Grecia, e Virgilio, Torcato, e Ariosto em Italia, dos quaes o ultimo[254] o confessa de si mesmo claramente, dizendo em huma das suas Satyras.

Visto hó Toscana Lombardia Romagna:
Quel monte che divide, i quel che serra
Italia, i un mare, il altro che là bagna
Questo mi basta, il resto de la terra,
Senza mai pagar lhoste, andro cercando.
Con Tolomeo, sia il mondo in pace, o in guerra.
E tuto il mar senza far voti, quando
Lampeggia il Ciel sicuro in su le carte,
Verrò, piu che su i legni volteggiando.

E por deixar os estranhos, o mesmo succedeo aos nossos Joaõ de Barros, e a Luiz de Camoens neste Reyno (porque a jornada, que este fez à India, naõ foy para aprender as letras, senaõ as armas) nem o Conde Balthasar Castilhioni obriga ao seu Cortesaõ a mayores jornadas, sendo assim, que o orna de tantas perfeiçoens, que parece impossivel acharse sogeito daquellas partes. Do mesmo modo foraõ tidos antigamente por insignes Capitaens Pirrho, e Filippe de Macedonia sem verem mais Provincias, que aquellas, em que se exercitaraõ nas armas; e modernamente em Espanha, o Graõ Capitaõ Gonçalo Fernandes, Antonio de Leiva; e dos nossos o Conde D. Nuno Alvares Pereira, Nuno Fernandes de Ataide, D. Francisco de Almeida, Affonso de Albuquerque, e outros; deixando os Italianos, que seria largo referir. E na Corte Hypolito de Este, Lourenço de Medices, e Jacobo Senazaro em Italia. Pelo que consta claramente, que todas as outras jornadas, que àlem destas se intentaraõ saõ voluntarias, e ordenadas, naõ por obrigaçaõ, senaõ pelo gosto de cada hum.

Com tudo fazendose esta peregrinaçaõ voluntaria em tempo, e idade conveniente, e por pessoas, que se saibaõ della aproveitar, sem duvida lhes serà de muito fruito, e ornamento: porque nellas se aprendem muitas cousas, e principalmente o sofrimento dos trabalhos, e paciencia, e o viver com temperança, como jà disse Democrito. Vitæ frugalitatem docent, offa quippe, & thorus herbaceus, famis, & laboris dulcissimæ medullæ sunt.

A idade, e tempo, em que estes caminhos se devem intentar, ha de ser atè aos 25. annos, em que se acaba a adolescencia, assim porque atè entaõ dà a natureza forças para sustentar o trabalho do caminho, alegria, e vigor para se continuar; como porque tambem esta he a idade propria de aprender. O tempo ha de ser desoccupado de outro mayor encargo, como o mostra Plutarco, quando diz: Quibus nihil domi boni est, dulcis est peregrinatio. Pelo que saõ mais dignos de reprehensaõ os que deixaõ os ministerios publicos, que tem a seu cargo por esta curiosidade, contra os quaes diz Tulio a Rufo: Vrbem mi Rufe cole, & in ista luce vive, omnis enim peregrinatio (quod ego ab adolescencia judicavi) obscura, & sordida est ijs, quorum industria Romæ potest illustris esse. De maneira, que com estas condiçoens poderà ser de bom effeito a peregrinaçaõ, ainda que as que se fazem por causa de Religiaõ, e de venerar os Santuarios, em todo o tempo, e idade saõ louvaveis, e piissimas. Postoque atè os Monges Giravagos, que havia antigamente, e gastavaõ toda a vida, visitando as Celas dos Anacoretas por diversas Provincias do mundo, foraõ muy reprehendidos dos Santos Patriarcas Bento, e Bruno, e em opposiçaõ sua, ordenaraõ o grande recolhimento de seus mosteiros. Porem o bom successo nas vagueaçoens voluntarias aconteceo rarissimas vezes; porque como estes desejos nasçaõ pela mayor parte do animo vago, inquieto, e inconstante, ficaõ sendo os meyos, e fins das jornadas semelhantes aos principios em que se fundaraõ. E assim das cousas, que Seneca louva a seu amigo Lucilio, he naõ lhe ver estes intentos: Bonam spem, diz elle, de te concipio quod non discurris, nec locorum mutationibus inquietaris: ægri animi jactatio ista est. Primum argumentũ bene compositæ mentis existimo posse conesistere, & secum morari. Mas porque muitos encobrem este vicioso appetite com o louvavel desejo de alcançar perfeitamente a Ethica com o conhecimento proprio, e melhoramento de costumes: serà necessario, que particularmente vejamos o pouco fruito, que dellas se colhe, e os grandes males, que daqui nascem, para que se acabe de entender, quanto se enganaõ os que cuidaõ, que nestas peregrinaçoens sómente consiste toda a sabedoria, e boa reputaçaõ de hum homem. De huma, e outra cousa, tratando particularmente o mesmo Seneca insigne Phylosopho moral, diz: Quid per se prodesse peregrinatio cuiquam potuit? Non voluptates illa temperavit, non cupiditates refrænavit, non iras repressit, non indomitos amoris impetus fregit, nulla denique animo mala eduxit, non judicium dedit, non excussit errorem, sed ut puerum ignota mirantem ad breve tempus rerum aliqua novitate detinuit; cæterum inconstantiam, quæ maximè agra est lacescit mobiliorem, levioremque reddidit ipsa jactatio. Itaque qui petierant cupidissime loca, cupidius deserunt, & avium modo transuolant, citiusque quàm venerant, abeunt. Peregrinatio notitiam dabit gentium; novas tibi montium formas ostendet, inusitata spatia camporum, & irriguas perenibus aquis valles, & alicujus fluminis sub observatione naturam, sive ut Nilus æstivo incremento tumet; sive ut Tigris eripitur ex oculis, & acto per occulta cursu integrè magnitudini redditur; sive ut Mæander Poetarum omnium exercitatio, & ludus implicatur crebris anfractibus, & sæpè in vicinum alueo suo admotus, antequam sibi influat, flectitur. Cæterum neque meliorem faciet, neque saniorem. Iter studio versandum est, & inter Authores Sapientiæ, ut quæsita discamus, nondum inventa quæramus. Sic eximendus animus ex miserrima servitute in libertatem asseritur. Quandiù quidem nescieris quid fugiendum, quid petendum, quid necessarium, quid supervacuum, quid justum, quid honestum non erit hoc peregrinari, sed errare, nullam tibi opem feret iste discursus, peregrinaris enim cum affectibus tuis, & mala te tua sequuntur. Utinam quidem sequerentur, longius abessent, nunc fers illa, non ducis. Itaque ubique te premunt, & paribus incommodis urunt. Medicina ergo, non regio quærenda est, fregit crus, aut extorsit articulum, non vehiculum navemque conscendit, sed advocat medicum, ut fracta pars jungatur, ut luxata in locum reponatur. Quid ergo animum tot locis fractum, aut extortum credes locorum mutatione posse sanari? Maius est illud malum, quàm ut gestatione curetur. Peregrinatio non facit medicum, non oratorem, nulla ars loco discitur. Quid ergo sapientia res omnium mamima in itinere colligitur?

Estas sentenças, que por serem proprias desta materia, quiz referir tanto ao largo, saõ todas gravissimas, e dignas de as trazermos diante dos olhos, e na memoria sempre. O mesmo que Seneca, quiz tambem dizer Horacio: Cælum non animum mutant, qui trans mare currunt. E o outro: Congressus sapientum confert prudentiam, non montes, aut maria. E da mesma opiniaõ saõ quasi todos os modernos. Pelo que naõ hà que duvidar, que os mais destes desejos de ver terras saõ viciosos, e indignos de varaõ prudente. Quanto mais, que se em algum tempo se pòde escusar a noticia do mundo adquirida pessoalmente, he neste nosso Seculo, em que o conhecimento delle està em grào taõ sobido com tantos livros, que nos mostraõ aos olhos, naõ só as Provincias, e Reynos, mas ainda as proprias Cidades, e Povos com tanta perfeiçaõ, e com tal particularidade, que he impossivel hum caminhante por mais curioso, e intelligente, que seja, alcançar a menor parte destas cousas, vendo, e andando, como em casa se conhecem todas, lendo, e estudando. Porque os que caminhaõ naõ se pòdem deter muito nas terras por onde passaõ, e doutras, nem sempre achaõ, quem lhes dè inteiras, e certas informaçoens. Porèm o que estuda, logra com toda a quietaçaõ, e repouso dos trabalhos alheyos, e aquella particular materia em que cada hum dos Authores empregou muitos annos de estudo, alcança perfeitamente em pouco tempo. Donde succede muitas vezes a alguns destes, que vem de Venesa, Roma, Pariz, e outras partes, perguntarem-lhe os que cà leraõ, as cousas daquellas Cidades por particularidades dellas: a que elles naõ sabem responder, nem ainda entender o que lhes perguntaõ. Deixo jà nos trabalhos immensos dos caminhos, os gastos excessivos, as inclemencias do ar, e os perigos da vida, que acompanhaõ estas peregrinaçoens, por razaõ das quaes cousas compara ordinariamente o Espirito Santo na Escritura Sagrada a vida humana, à peregrinaçaõ, e chama patria ao Paraiso Celeste, em que se gosa a visaõ Beatifica, significando no nome da patria a Bemaventurança, e no da peregrinaçaõ, toda a pena, e tormento; porèm he tal a condiçaõ de muitos, que estimaõ tanto mais a mesma cousa, quanto mais lhe custa, o que naõ he digno menos de condenaçaõ, que se hum Capitaõ despresasse a vitoria certa por lhe naõ custar sangue, e a estimasse mais por a alcançar com morte de muitos Soldados; por taes podemos julgar hoje os que podendo facilmente na Patria.

Sò por puro engenho, e por sciencia
Ver do mundo os segredos escondidos.

Como diz o nosso Poeta, os vaõ buscar por meyo de tantos trabalhos, para depois de correrem o mundo contarem, que viraõ o Labirynto de Creta, e Cidades inteiras com seus moradores de pedra, e hum carcre em que estavaõ tresentos mil presos, e que o Espirito Santo apparece nas tormentas em forma de fogo, e que viraõ em certas paragens andar o Sol, e a Lua as avessas, com outros semelhantes, movidos só das apparencias da vista, de que elles tanto caso fazem. Por tanto a verdade das sentenças de Seneca, a mesma experiencia mostrou sempre nestes peregrinantes, hum dos quaes, tornando depois de largo caminho a Athenas; e achandose em tudo tal como partira, perguntou a causa a Socrates, o qual lhe respondeo, que nascia de se levar a si sempre comsigo; e bem fora ainda, que tornaraõ sempre os mesmos, e naõ peyorados. Porèm destes dizia Cataõ, que viera todo o mal a Roma, e o mesmo entendia Amistenes, quando affirmava, que todos os vicios de Grecia eraõ peregrinos; porque daqui nascem os excessos dos trajos, a gula, e sobegidaõ dos banquetes, e soltura dos vicios, os jogos, as pompas, e ainda mil emfermidades contagiosas, lavrando tanto mais depreça estes vicios na Republica, quanto as pessoas, em que se vem, saõ mais conhecidas nella; e pela noticia, que tem do mundo, mais authorisadas. Assaz hà que sentir disto em nossa Espanha, e neste Reyno particularmente, onde com os costumes estrangeiros vimos acabada a temperança, e inteireza antiga dos Portugueses, e com ella o valor, e Imperio padeceraõ tambem grande naufragio. Pelo que com muita razaõ em algumas Respublicas bem ordenadas se prohibiraõ com severissimas leys estas peregrinaçoens. Na dos Lacedemonios se conservava este costume de modo, que mostrando hum mancebo Lacedemonio saber o caminho, que hia para Pileas, foy disso reprendido rigorosamente. Os nobres Athenienses se presavaõ tanto de naõ sahir da patria, que por isso traziaõ continuamente huma cigarra de ouro na cabeça por divisa, mostrando com isto, que eraõ taõ continuos nella, como este animal, o qual entre todos os outros tem tal qualidade, que senaõ muda nunca do sitio donde nasceo. O mesmo guardaõ em nossos tempos as familias clarissimas de Veneza, dos quaes rarissimos saõ os que vaõ fóra da terra, senaõ Enviados da Republica. E o grande Imperio dos Chinas se sustentou por mais de dous mil annos, naõ admittindo estrangeiros no Reyno, nem se permittir aos naturaes sahir da Provincia, senaõ com estreitissima licença. Daqui se poderà entender quanto mais dignos saõ de reprehensaõ, os que intentao estes caminhos só pelo gosto de ver varios lugares, pois tomaõ por deleite o desterro da patria, que todas as gentes julgaraõ pela mayor pena da vida; como pelo contrario o poder estar na patria por a mayor felicidade della, segundo o nota excellentemente Claudiano neste Epigrama.

Felix, qui patriis ævum transegit in arvis.
Ipsa domus puerum, quem videt ipsa senem.
Qui baculo nitens, in qua reptavit arena,
Unius numerat sæcula longa casæ.
Illum non vario traxit Fortuna tumultu,
Nec bibit ignotas mobilis hospes aquas.
Non freta mercator timuit, non clasica miles.
Non rauci lites pertulit ille fori.
Indocilis rerum vicinæ nescius urbis,
Ad spectu fruitur liberiore poli.
Frugibus alternis, non Consule, computat annum.
Autumnum pomis ver sibi flore notat.
Idem condit ager, soles idemque reducit,
Metiturque suo rusticus orbe diem.
Ingentem meminit parvo, qui germine quercum,
Æquævumque videt consenuisse nemus.
Proxima cui nigris Verona remotior Indis,
Benacumque putat littora rubra lacum.
Sed tamen indomitæ vires firmisque lacertis
Ætas robustum tertia cernit avum.
Erret, & extremos alter scrutetur Iberos,
Plus habet hic vitæ, plus habet ille viæ.